Acrônimos PICO, PICo, PICOT e Variações

Estruturando perguntas de pesquisa e estratégias de busca

Autor
Afiliação

Henrique Alvarenga da Silva

Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)

Por que estruturar a pergunta de pesquisa?

Uma pergunta de pesquisa bem formulada é o ponto de partida para qualquer revisão de literatura. Perguntas vagas ou mal definidas resultam em buscas imprecisas, seleção inconsistente de estudos e conclusões frágeis.

Os acrônimos como PICO funcionam como frameworks que ajudam a decompor a pergunta em elementos essenciais, tornando-a clara, específica e pesquisável (Santos; Pimenta; Nobre, 2007).

NotaPrincípio fundamental

Uma boa pergunta de pesquisa deve ser específica o suficiente para ser respondida, mas ampla o suficiente para ter relevância clínica ou científica.

PICO: o acrônimo clássico

O acrônimo PICO foi desenvolvido no contexto da Medicina Baseada em Evidências para formular perguntas clínicas sobre intervenções (Richardson et al., 1995; Santos; Pimenta; Nobre, 2007).

Elemento Significado Pergunta orientadora
P População / Paciente / Problema Quem são os pacientes? Qual a condição?
I Intervenção O que está sendo testado ou avaliado?
C Comparação Qual a alternativa? (pode ser ausente)
O Outcome (Desfecho) Qual o resultado esperado?

Exemplo de pergunta PICO

Pergunta narrativa: “Antidepressivos funcionam para depressão em idosos?”

Pergunta estruturada (PICO):

Elemento Conteúdo
P Idosos (≥ 65 anos) com transtorno depressivo maior
I Antidepressivos (ISRS)
C Placebo
O Remissão dos sintomas depressivos

Pergunta final: “Em idosos com transtorno depressivo maior, os inibidores seletivos de recaptação de serotonina são superiores ao placebo para alcançar remissão dos sintomas?”

DicaDica prática

O elemento C (comparação) nem sempre está presente. Em estudos descritivos ou de prevalência, pode não haver grupo de comparação.

PICOT: adicionando o tempo

O acrônimo PICOT acrescenta o elemento T (Time / Tempo), útil quando a duração do seguimento ou o momento da avaliação são relevantes.

Elemento Significado
P População
I Intervenção
C Comparação
O Outcome (Desfecho)
T Time (Tempo)

Exemplo de pergunta PICOT

Elemento Conteúdo
P Adultos com transtorno de ansiedade generalizada
I Terapia cognitivo-comportamental
C Lista de espera
O Redução dos sintomas de ansiedade
T 12 semanas de seguimento

PICo: para estudos qualitativos

O acrônimo PICo (com “o” minúsculo) é uma adaptação para perguntas de pesquisa qualitativa, onde não há intervenção nem comparação no sentido tradicional.

Elemento Significado Descrição
P População Quem são os participantes?
I Fenômeno de Interesse O que está sendo explorado?
Co Contexto Em que circunstância ou ambiente?

Exemplo de pergunta PICo

Elemento Conteúdo
P Pacientes com esquizofrenia
I Experiência de ouvir vozes
Co Atendimento ambulatorial em serviço público

Pergunta final: “Como pacientes com esquizofrenia em atendimento ambulatorial no serviço público vivenciam a experiência de ouvir vozes?”

PCC: para revisões de escopo

O framework PCC é recomendado pelo JBI para revisões de escopo, que têm caráter exploratório e mapeiam a literatura.

Elemento Significado Descrição
P População Quem são os participantes ou público-alvo?
C Conceito Qual o conceito ou fenômeno central?
C Contexto Em que setting ou circunstância?

Exemplo de pergunta PCC

Elemento Conteúdo
P Profissionais de saúde
C Estratégias de prevenção de burnout
C Unidades de terapia intensiva

Pergunta final: “Quais estratégias de prevenção de burnout têm sido estudadas em profissionais de saúde que atuam em unidades de terapia intensiva?”

SPIDER: alternativa para estudos qualitativos

O acrônimo SPIDER foi proposto como alternativa ao PICO para revisões que incluem estudos qualitativos e mistos (Cooke; Smith; Booth, 2012).

Elemento Significado Descrição
S Sample (Amostra) Grupo de interesse
PI Phenomenon of Interest Fenômeno estudado
D Design Delineamento do estudo
E Evaluation Como o fenômeno é avaliado
R Research type Tipo de pesquisa (quali, quanti, mista)

Exemplo de pergunta SPIDER

Elemento Conteúdo
S Cuidadores de pacientes com demência
PI Sobrecarga do cuidador
D Estudos qualitativos
E Entrevistas, grupos focais
R Qualitativa

PECO: para estudos de etiologia/exposição

O acrônimo PECO é usado para perguntas sobre fatores de risco ou exposição, comuns em estudos observacionais (coorte, caso-controle).

Elemento Significado
P População
E Exposição (fator de risco)
C Comparação (não expostos)
O Outcome (Desfecho)

Exemplo de pergunta PECO

Elemento Conteúdo
P Adultos jovens
E Uso de cannabis na adolescência
C Não uso de cannabis
O Desenvolvimento de transtornos psicóticos

Pergunta final: “O uso de cannabis na adolescência aumenta o risco de transtornos psicóticos em adultos jovens comparado a não usuários?”

Qual acrônimo usar?

A escolha depende do tipo de pergunta e do tipo de estudo:

Tipo de pergunta Acrônimo recomendado
Eficácia de intervenção PICO, PICOT
Etiologia / Fatores de risco PECO
Experiências e significados (quali) PICo, SPIDER
Mapeamento da literatura (escopo) PCC
Diagnóstico PICO (adaptado)
Prognóstico PICO (adaptado)

flowchart TD
    A[Qual é sua pergunta?] --> B{Tipo de estudo?}
    
    B -->|Intervenção| C[PICO / PICOT]
    B -->|Exposição / Risco| D[PECO]
    B -->|Qualitativo| E[PICo / SPIDER]
    B -->|Revisão de escopo| F[PCC]

Da pergunta à estratégia de busca

Após estruturar a pergunta, cada elemento do acrônimo orienta a construção da estratégia de busca nas bases de dados.

Passo a passo

  1. Identifique os termos para cada elemento do acrônimo
  2. Busque sinônimos e termos relacionados
  3. Identifique descritores controlados (MeSH, DeCS)
  4. Combine os termos com operadores booleanos

Operadores booleanos

Operador Função Exemplo
AND Intersecção (restringe) depression AND elderly
OR União (amplia) elderly OR aged OR older
NOT Exclusão (use com cautela) depression NOT bipolar

Exemplo de estratégia de busca

Pergunta PICO: “Em idosos com depressão, os ISRS são eficazes para remissão dos sintomas?”

Elemento Termos de busca
P elderly OR aged OR “older adults” OR geriatric
I SSRI OR “selective serotonin reuptake inhibitor” OR fluoxetine OR sertraline
O remission OR response OR improvement

Estratégia combinada:

(elderly OR aged OR "older adults" OR geriatric)
AND
(SSRI OR "selective serotonin reuptake inhibitor" OR fluoxetine OR sertraline OR escitalopram)
AND
(depression OR "depressive disorder" OR "major depression")
AND
(remission OR response OR improvement)
DicaDica prática

Comece com uma busca sensível (ampla) e depois refine conforme necessário. É melhor ter muitos resultados para triar do que perder estudos relevantes.

Erros comuns na formulação da pergunta

AvisoEvite estes erros
  1. Pergunta muito ampla: “O que se sabe sobre depressão?” — impossível de responder sistematicamente

  2. Pergunta muito restrita: “A fluoxetina 20mg por 8 semanas é eficaz para depressão leve em mulheres entre 30-35 anos no Brasil?” — pode não haver estudos

  3. Ausência de desfecho claro: “Os ISRS são bons para idosos?” — bons em quê?

  4. Confundir intervenção com exposição: usar PICO quando deveria usar PECO

  5. Misturar múltiplas perguntas: “Os ISRS são eficazes e seguros e melhoram qualidade de vida?” — são três perguntas diferentes

Resumo

NotaPontos-chave
  • Acrônimos ajudam a estruturar perguntas de pesquisa de forma clara
  • PICO é o padrão para perguntas sobre intervenções
  • PICo e SPIDER são adaptações para estudos qualitativos
  • PCC é recomendado para revisões de escopo
  • PECO é usado para perguntas sobre exposição/risco
  • Cada elemento do acrônimo orienta a estratégia de busca
  • Use operadores booleanos (AND, OR, NOT) para combinar termos
  • Evite perguntas muito amplas ou muito restritas

Leituras recomendadas

  • Santos; Pimenta; Nobre (2007) — A estratégia PICO para a construção da pergunta de pesquisa
  • Richardson et al. (1995) — The well-built clinical question
  • Cooke; Smith; Booth (2012) — Beyond PICO: the SPIDER tool for qualitative evidence synthesis
  • Nobre; Bernardo; Jatene (2004) — A prática clínica baseada em evidências

Próximo capítulo: Registro de Protocolos

Referências

COOKE, Alison; SMITH, Debbie; BOOTH, Andrew. Beyond PICO: the SPIDER tool for qualitative evidence synthesis. Qualitative Health Research, v. 22, n. 10, p. 1435–1443, 2012.
NOBRE, Moacyr Roberto Cuce; BERNARDO, Wanderley Marques; JATENE, Fábio Biscegli. A prática clínica baseada em evidências. Parte I: questões clínicas bem construídas. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 50, n. 4, p. 445–449, 2004.
RICHARDSON, W. Scott et al. The well-built clinical question: a key to evidence-based decisions. ACP Journal Club, v. 123, n. 3, p. A12–A13, 1995.
SANTOS, Cristina Mamédio da Costa; PIMENTA, Cibele Andrucioli de Mattos; NOBRE, Moacyr Roberto Cuce. A estratégia PICO para a construção da pergunta de pesquisa e busca de evidências. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 15, n. 3, p. 508–511, 2007.