Revisão Sistemática

O padrão-ouro para síntese de evidências

Autor
Afiliação

Henrique Alvarenga da Silva

Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)

O que é uma revisão sistemática?

A revisão sistemática é um tipo de estudo secundário que utiliza métodos rigorosos e explícitos para identificar, selecionar, avaliar criticamente e sintetizar todas as evidências disponíveis sobre uma pergunta de pesquisa específica (Higgins et al., 2019).

É considerada o padrão-ouro para síntese de evidências porque minimiza vieses através de um processo transparente, reprodutível e abrangente. Seus resultados fundamentam diretrizes clínicas, políticas de saúde e decisões sobre práticas assistenciais.

NotaDefinição

“Uma revisão sistemática é uma revisão de uma pergunta claramente formulada que utiliza métodos sistemáticos e explícitos para identificar, selecionar e avaliar criticamente pesquisas relevantes, e para coletar e analisar dados dos estudos incluídos na revisão” (Higgins et al., 2019).

Características principais

Característica Descrição
Pergunta de pesquisa Específica, bem delimitada
Protocolo Obrigatório, registrado previamente
Estratégia de busca Exaustiva, em múltiplas bases
Seleção de estudos Critérios rígidos, revisores independentes
Tipos de estudo Geralmente homogêneos (ex: apenas ECRs)
Avaliação de qualidade Obrigatória, com instrumentos validados
Síntese dos resultados Qualitativa e/ou quantitativa (meta-análise)
Reprodutibilidade Alta

O que diferencia a revisão sistemática?

Três elementos fundamentais distinguem a revisão sistemática de outros tipos:

1. Protocolo prévio

O método é definido antes de iniciar a revisão e registrado publicamente (PROSPERO, OSF). Isso evita que decisões metodológicas sejam influenciadas pelos resultados encontrados.

2. Busca exaustiva

A busca visa identificar todos os estudos relevantes, incluindo literatura cinzenta e estudos não publicados, para minimizar o viés de publicação.

3. Avaliação de qualidade

Cada estudo incluído é avaliado quanto ao risco de viés usando instrumentos padronizados. A qualidade da evidência influencia as conclusões.

ImportanteRigor metodológico

A força da revisão sistemática está na transparência. Cada etapa é documentada de forma que outro pesquisador possa reproduzir o processo e chegar aos mesmos resultados.

Quando usar a revisão sistemática?

A revisão sistemática é indicada para:

  • Responder a perguntas clínicas específicas sobre eficácia ou efetividade
  • Fundamentar diretrizes clínicas e protocolos assistenciais
  • Subsidiar políticas de saúde baseadas em evidências
  • Resolver controvérsias quando estudos individuais são conflitantes
  • Identificar a necessidade de novos estudos primários
DicaExemplos de perguntas adequadas
  • “A terapia cognitivo-comportamental é eficaz para tratamento de insônia em adultos?”
  • “Qual a acurácia diagnóstica da ultrassonografia para apendicite aguda?”
  • “Antidepressivos são superiores ao placebo no tratamento de depressão leve?”

Observe que são perguntas específicas, com população, intervenção e desfecho bem definidos.

Quando NÃO usar a revisão sistemática?

A revisão sistemática não é adequada quando:

  • A pergunta é ampla ou exploratória (prefira revisão de escopo)
  • poucos estudos primários disponíveis
  • Os estudos são muito heterogêneos para síntese
  • O objetivo é fundamentação teórica (prefira revisão narrativa)
  • urgência e não há tempo para o processo completo (considere revisão rápida)

Etapas da revisão sistemática

O processo segue etapas bem definidas, conforme o Cochrane Handbook (Higgins et al., 2019):

  1. Formular a pergunta PICO
  2. Elaborar e registrar o protocolo
  3. Buscar estudos nas bases de dados
  4. Selecionar estudos por critérios
  5. Extrair dados dos estudos
  6. Avaliar risco de viés
  7. Sintetizar resultados
  8. Avaliar certeza da evidência
  9. Redigir e publicar a revisão

Etapa 1: Formulação da pergunta

A pergunta deve seguir o formato PICO:

Elemento Descrição Exemplo
P - População Quem são os pacientes? Adultos com transtorno de ansiedade generalizada
I - Intervenção O que está sendo avaliado? Terapia cognitivo-comportamental
C - Comparação Qual a alternativa? Lista de espera ou tratamento usual
O - Outcome Qual o desfecho? Redução dos sintomas de ansiedade

➡️ Veja mais em Acrônimos PICO

Etapa 2: Elaboração e registro do protocolo

O protocolo deve conter:

  • Pergunta de pesquisa (PICO)
  • Critérios de inclusão e exclusão
  • Estratégia de busca
  • Processo de seleção
  • Variáveis a serem extraídas
  • Método de avaliação de qualidade
  • Plano de síntese dos dados
ImportanteRegistro obrigatório

Registre o protocolo no PROSPERO (para revisões de saúde) ou OSF antes de iniciar a busca. Isso aumenta a transparência e evita duplicação de esforços.

➡️ Veja mais em Registro de Protocolos

Etapa 3: Busca nas bases de dados

A busca deve ser:

  • Sensível: capturar o máximo de estudos relevantes
  • Específica: evitar excesso de estudos irrelevantes
  • Reprodutível: documentada em detalhes

Bases de dados recomendadas:

Área Bases principais
Medicina/Saúde PubMed/MEDLINE, Embase, Cochrane CENTRAL
Enfermagem CINAHL
Psicologia PsycINFO
América Latina LILACS
Multidisciplinar Scopus, Web of Science

Inclua também:

  • Busca manual em referências dos estudos incluídos
  • Literatura cinzenta (teses, dissertações, anais)
  • Contato com especialistas
  • Registros de ensaios clínicos (ClinicalTrials.gov)

Etapa 4: Seleção dos estudos

O processo de seleção deve ser realizado por dois revisores independentes:

  1. Triagem por título e resumo: excluir estudos claramente irrelevantes
  2. Leitura do texto completo: aplicar todos os critérios de elegibilidade
  3. Resolução de discordâncias: consenso ou terceiro revisor

Documente o processo no fluxograma PRISMA (Page et al., 2021).

flowchart TD
    A[Registros identificados<br>nas bases de dados] --> B[Registros após<br>remoção de duplicatas]
    B --> C[Registros triados<br>por título/resumo]
    C --> D[Registros excluídos]
    C --> E[Artigos em texto completo<br>avaliados para elegibilidade]
    E --> F[Artigos excluídos<br>com motivos]
    E --> G[Estudos incluídos<br>na revisão]

Etapa 5: Extração de dados

Utilize um formulário padronizado para extrair:

  • Características do estudo (autor, ano, país, delineamento)
  • Características dos participantes (n, idade, sexo, critérios diagnósticos)
  • Detalhes da intervenção e comparação
  • Desfechos e medidas utilizadas
  • Resultados numéricos (médias, desvios-padrão, razões de chance, etc.)
  • Fontes de financiamento e conflitos de interesse
DicaDica prática

Faça um piloto da extração com 2-3 estudos para calibrar os revisores e ajustar o formulário antes de prosseguir.

Etapa 6: Avaliação do risco de viés

Cada estudo deve ser avaliado quanto à qualidade metodológica. Os instrumentos variam conforme o delineamento:

Tipo de estudo Instrumento recomendado
Ensaios clínicos randomizados Cochrane Risk of Bias (RoB 2)
Estudos observacionais Newcastle-Ottawa Scale, ROBINS-I
Estudos diagnósticos QUADAS-2
Estudos qualitativos CASP, JBI Critical Appraisal

A avaliação deve ser feita por dois revisores independentes.

Etapa 7: Síntese dos resultados

A síntese pode ser:

Qualitativa (narrativa): quando os estudos são muito heterogêneos para combinação estatística. Descreve os achados de forma estruturada, agrupando por características relevantes.

Quantitativa (meta-análise): quando os estudos são suficientemente semelhantes, permite calcular uma estimativa combinada do efeito.

➡️ Veja mais em Meta-análise

Etapa 8: Avaliação da certeza da evidência

O sistema GRADE (Guyatt et al., 2008) é o método recomendado para avaliar a qualidade geral da evidência para cada desfecho:

Nível Significado
Alta Muita confiança no efeito estimado
Moderada Confiança moderada; o efeito verdadeiro provavelmente é próximo
Baixa Confiança limitada; o efeito pode ser diferente
Muito baixa Pouca confiança; o efeito é incerto

Fatores que reduzem a qualidade: risco de viés, inconsistência, imprecisão, evidência indireta, viés de publicação.

Etapa 9: Redação e publicação

O relato deve seguir as diretrizes PRISMA 2020 (Page et al., 2021), que incluem 27 itens obrigatórios para garantir transparência e completude.

PRISMA 2020

O PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) é o checklist padrão para relato de revisões sistemáticas (Page et al., 2021). A versão 2020 inclui:

  • Checklist com 27 itens
  • Modelo de fluxograma
  • Orientações para cada item
AvisoAtenção

Muitos periódicos exigem o checklist PRISMA preenchido como condição para submissão. Verifique as instruções aos autores antes de submeter.

Vantagens

  • Rigor metodológico: minimiza vieses na seleção e análise
  • Transparência: processo reprodutível e auditável
  • Abrangência: busca exaustiva da literatura
  • Confiabilidade: avaliação de qualidade dos estudos incluídos
  • Força de evidência: alto nível na hierarquia de evidências
  • Utilidade clínica: fundamenta diretrizes e decisões

Limitações

  • Tempo e recursos: processo demorado (6-18 meses)
  • Dependência de estudos primários: qualidade limitada pela qualidade dos estudos originais
  • Viés de publicação: estudos negativos podem não estar publicados
  • Heterogeneidade: estudos muito diferentes dificultam síntese
  • Desatualização: pode ficar obsoleta rapidamente em áreas com muita produção

Revisão sistemática vs. outros tipos

Aspecto Narrativa Integrativa Escopo Sistemática
Pergunta Ampla Ampla Ampla Específica
Protocolo Não Recomendado Recomendado Obrigatório
Busca Não sistemática Sistemática Sistemática Exaustiva
Avaliação de qualidade Não Opcional Não Obrigatória
Síntese Qualitativa Qualitativa Descritiva Quali/quanti
Nível de evidência Baixo Moderado Alto

Resumo

NotaPontos-chave
  • A revisão sistemática é o padrão-ouro para síntese de evidências
  • Exige protocolo registrado antes do início
  • A busca deve ser exaustiva e documentada
  • A seleção e extração são feitas por dois revisores independentes
  • A avaliação de qualidade dos estudos é obrigatória
  • O relato deve seguir as diretrizes PRISMA 2020 (Page et al., 2021)
  • Fundamenta diretrizes clínicas e decisões em saúde
  • Demanda tempo e recursos significativos

Leituras recomendadas

  • Higgins et al. (2019) — Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions
  • Page et al. (2021) — The PRISMA 2020 statement
  • Moher et al. (2009) — PRISMA statement (versão original)
  • Sampaio; Mancini (2007) — Estudos de revisão sistemática: um guia para síntese criteriosa

Próximo capítulo: Meta-análise

Referências

GUYATT, Gordon H. et al. GRADE: an emerging consensus on rating quality of evidence and strength of recommendations. BMJ, v. 336, n. 7650, p. 924–926, 2008.
HIGGINS, Julian P. T. et al. Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions. 2nd. ed. Chichester: John Wiley & Sons, 2019.
MOHER, David et al. Preferred reporting items for systematic reviews and meta-analyses: the PRISMA statement. PLoS Medicine, v. 6, n. 7, p. e1000097, 2009.
PAGE, Matthew J. et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ, v. 372, p. n71, 2021.
SAMPAIO, Rosana Ferreira; MANCINI, Marisa Cotta. Estudos de revisão sistemática: um guia para síntese criteriosa da evidência científica. Revista Brasileira de Fisioterapia, v. 11, n. 1, p. 83–89, 2007.