flowchart TD
A[Registros identificados<br>nas bases de dados] --> B[Registros após<br>remoção de duplicatas]
B --> C[Registros triados<br>por título/resumo]
C --> D[Registros excluídos]
C --> E[Artigos em texto completo<br>avaliados para elegibilidade]
E --> F[Artigos excluídos<br>com motivos]
E --> G[Estudos incluídos<br>na revisão]
Revisão Sistemática
O padrão-ouro para síntese de evidências
O que é uma revisão sistemática?
A revisão sistemática é um tipo de estudo secundário que utiliza métodos rigorosos e explícitos para identificar, selecionar, avaliar criticamente e sintetizar todas as evidências disponíveis sobre uma pergunta de pesquisa específica (Higgins et al., 2019).
É considerada o padrão-ouro para síntese de evidências porque minimiza vieses através de um processo transparente, reprodutível e abrangente. Seus resultados fundamentam diretrizes clínicas, políticas de saúde e decisões sobre práticas assistenciais.
“Uma revisão sistemática é uma revisão de uma pergunta claramente formulada que utiliza métodos sistemáticos e explícitos para identificar, selecionar e avaliar criticamente pesquisas relevantes, e para coletar e analisar dados dos estudos incluídos na revisão” (Higgins et al., 2019).
Características principais
| Característica | Descrição |
|---|---|
| Pergunta de pesquisa | Específica, bem delimitada |
| Protocolo | Obrigatório, registrado previamente |
| Estratégia de busca | Exaustiva, em múltiplas bases |
| Seleção de estudos | Critérios rígidos, revisores independentes |
| Tipos de estudo | Geralmente homogêneos (ex: apenas ECRs) |
| Avaliação de qualidade | Obrigatória, com instrumentos validados |
| Síntese dos resultados | Qualitativa e/ou quantitativa (meta-análise) |
| Reprodutibilidade | Alta |
O que diferencia a revisão sistemática?
Três elementos fundamentais distinguem a revisão sistemática de outros tipos:
1. Protocolo prévio
O método é definido antes de iniciar a revisão e registrado publicamente (PROSPERO, OSF). Isso evita que decisões metodológicas sejam influenciadas pelos resultados encontrados.
2. Busca exaustiva
A busca visa identificar todos os estudos relevantes, incluindo literatura cinzenta e estudos não publicados, para minimizar o viés de publicação.
3. Avaliação de qualidade
Cada estudo incluído é avaliado quanto ao risco de viés usando instrumentos padronizados. A qualidade da evidência influencia as conclusões.
A força da revisão sistemática está na transparência. Cada etapa é documentada de forma que outro pesquisador possa reproduzir o processo e chegar aos mesmos resultados.
Quando usar a revisão sistemática?
A revisão sistemática é indicada para:
- Responder a perguntas clínicas específicas sobre eficácia ou efetividade
- Fundamentar diretrizes clínicas e protocolos assistenciais
- Subsidiar políticas de saúde baseadas em evidências
- Resolver controvérsias quando estudos individuais são conflitantes
- Identificar a necessidade de novos estudos primários
- “A terapia cognitivo-comportamental é eficaz para tratamento de insônia em adultos?”
- “Qual a acurácia diagnóstica da ultrassonografia para apendicite aguda?”
- “Antidepressivos são superiores ao placebo no tratamento de depressão leve?”
Observe que são perguntas específicas, com população, intervenção e desfecho bem definidos.
Quando NÃO usar a revisão sistemática?
A revisão sistemática não é adequada quando:
- A pergunta é ampla ou exploratória (prefira revisão de escopo)
- Há poucos estudos primários disponíveis
- Os estudos são muito heterogêneos para síntese
- O objetivo é fundamentação teórica (prefira revisão narrativa)
- Há urgência e não há tempo para o processo completo (considere revisão rápida)
Etapas da revisão sistemática
O processo segue etapas bem definidas, conforme o Cochrane Handbook (Higgins et al., 2019):
- Formular a pergunta PICO
- Elaborar e registrar o protocolo
- Buscar estudos nas bases de dados
- Selecionar estudos por critérios
- Extrair dados dos estudos
- Avaliar risco de viés
- Sintetizar resultados
- Avaliar certeza da evidência
- Redigir e publicar a revisão
Etapa 1: Formulação da pergunta
A pergunta deve seguir o formato PICO:
| Elemento | Descrição | Exemplo |
|---|---|---|
| P - População | Quem são os pacientes? | Adultos com transtorno de ansiedade generalizada |
| I - Intervenção | O que está sendo avaliado? | Terapia cognitivo-comportamental |
| C - Comparação | Qual a alternativa? | Lista de espera ou tratamento usual |
| O - Outcome | Qual o desfecho? | Redução dos sintomas de ansiedade |
➡️ Veja mais em Acrônimos PICO
Etapa 2: Elaboração e registro do protocolo
O protocolo deve conter:
- Pergunta de pesquisa (PICO)
- Critérios de inclusão e exclusão
- Estratégia de busca
- Processo de seleção
- Variáveis a serem extraídas
- Método de avaliação de qualidade
- Plano de síntese dos dados
Registre o protocolo no PROSPERO (para revisões de saúde) ou OSF antes de iniciar a busca. Isso aumenta a transparência e evita duplicação de esforços.
➡️ Veja mais em Registro de Protocolos
Etapa 3: Busca nas bases de dados
A busca deve ser:
- Sensível: capturar o máximo de estudos relevantes
- Específica: evitar excesso de estudos irrelevantes
- Reprodutível: documentada em detalhes
Bases de dados recomendadas:
| Área | Bases principais |
|---|---|
| Medicina/Saúde | PubMed/MEDLINE, Embase, Cochrane CENTRAL |
| Enfermagem | CINAHL |
| Psicologia | PsycINFO |
| América Latina | LILACS |
| Multidisciplinar | Scopus, Web of Science |
Inclua também:
- Busca manual em referências dos estudos incluídos
- Literatura cinzenta (teses, dissertações, anais)
- Contato com especialistas
- Registros de ensaios clínicos (ClinicalTrials.gov)
Etapa 4: Seleção dos estudos
O processo de seleção deve ser realizado por dois revisores independentes:
- Triagem por título e resumo: excluir estudos claramente irrelevantes
- Leitura do texto completo: aplicar todos os critérios de elegibilidade
- Resolução de discordâncias: consenso ou terceiro revisor
Documente o processo no fluxograma PRISMA (Page et al., 2021).
Etapa 5: Extração de dados
Utilize um formulário padronizado para extrair:
- Características do estudo (autor, ano, país, delineamento)
- Características dos participantes (n, idade, sexo, critérios diagnósticos)
- Detalhes da intervenção e comparação
- Desfechos e medidas utilizadas
- Resultados numéricos (médias, desvios-padrão, razões de chance, etc.)
- Fontes de financiamento e conflitos de interesse
Faça um piloto da extração com 2-3 estudos para calibrar os revisores e ajustar o formulário antes de prosseguir.
Etapa 6: Avaliação do risco de viés
Cada estudo deve ser avaliado quanto à qualidade metodológica. Os instrumentos variam conforme o delineamento:
| Tipo de estudo | Instrumento recomendado |
|---|---|
| Ensaios clínicos randomizados | Cochrane Risk of Bias (RoB 2) |
| Estudos observacionais | Newcastle-Ottawa Scale, ROBINS-I |
| Estudos diagnósticos | QUADAS-2 |
| Estudos qualitativos | CASP, JBI Critical Appraisal |
A avaliação deve ser feita por dois revisores independentes.
Etapa 7: Síntese dos resultados
A síntese pode ser:
Qualitativa (narrativa): quando os estudos são muito heterogêneos para combinação estatística. Descreve os achados de forma estruturada, agrupando por características relevantes.
Quantitativa (meta-análise): quando os estudos são suficientemente semelhantes, permite calcular uma estimativa combinada do efeito.
➡️ Veja mais em Meta-análise
Etapa 8: Avaliação da certeza da evidência
O sistema GRADE (Guyatt et al., 2008) é o método recomendado para avaliar a qualidade geral da evidência para cada desfecho:
| Nível | Significado |
|---|---|
| Alta | Muita confiança no efeito estimado |
| Moderada | Confiança moderada; o efeito verdadeiro provavelmente é próximo |
| Baixa | Confiança limitada; o efeito pode ser diferente |
| Muito baixa | Pouca confiança; o efeito é incerto |
Fatores que reduzem a qualidade: risco de viés, inconsistência, imprecisão, evidência indireta, viés de publicação.
Etapa 9: Redação e publicação
O relato deve seguir as diretrizes PRISMA 2020 (Page et al., 2021), que incluem 27 itens obrigatórios para garantir transparência e completude.
PRISMA 2020
O PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) é o checklist padrão para relato de revisões sistemáticas (Page et al., 2021). A versão 2020 inclui:
- Checklist com 27 itens
- Modelo de fluxograma
- Orientações para cada item
Muitos periódicos exigem o checklist PRISMA preenchido como condição para submissão. Verifique as instruções aos autores antes de submeter.
Vantagens
- Rigor metodológico: minimiza vieses na seleção e análise
- Transparência: processo reprodutível e auditável
- Abrangência: busca exaustiva da literatura
- Confiabilidade: avaliação de qualidade dos estudos incluídos
- Força de evidência: alto nível na hierarquia de evidências
- Utilidade clínica: fundamenta diretrizes e decisões
Limitações
- Tempo e recursos: processo demorado (6-18 meses)
- Dependência de estudos primários: qualidade limitada pela qualidade dos estudos originais
- Viés de publicação: estudos negativos podem não estar publicados
- Heterogeneidade: estudos muito diferentes dificultam síntese
- Desatualização: pode ficar obsoleta rapidamente em áreas com muita produção
Revisão sistemática vs. outros tipos
| Aspecto | Narrativa | Integrativa | Escopo | Sistemática |
|---|---|---|---|---|
| Pergunta | Ampla | Ampla | Ampla | Específica |
| Protocolo | Não | Recomendado | Recomendado | Obrigatório |
| Busca | Não sistemática | Sistemática | Sistemática | Exaustiva |
| Avaliação de qualidade | Não | Opcional | Não | Obrigatória |
| Síntese | Qualitativa | Qualitativa | Descritiva | Quali/quanti |
| Nível de evidência | Baixo | Moderado | — | Alto |
Resumo
- A revisão sistemática é o padrão-ouro para síntese de evidências
- Exige protocolo registrado antes do início
- A busca deve ser exaustiva e documentada
- A seleção e extração são feitas por dois revisores independentes
- A avaliação de qualidade dos estudos é obrigatória
- O relato deve seguir as diretrizes PRISMA 2020 (Page et al., 2021)
- Fundamenta diretrizes clínicas e decisões em saúde
- Demanda tempo e recursos significativos
Leituras recomendadas
- Higgins et al. (2019) — Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions
- Page et al. (2021) — The PRISMA 2020 statement
- Moher et al. (2009) — PRISMA statement (versão original)
- Sampaio; Mancini (2007) — Estudos de revisão sistemática: um guia para síntese criteriosa
Próximo capítulo: Meta-análise