Revisão de Escopo

Mapeando a literatura para compreender um campo de pesquisa

Autor
Afiliação

Henrique Alvarenga da Silva

Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)

O que é uma revisão de escopo?

A revisão de escopo (scoping review ou scoping study) é um tipo de revisão que visa mapear a extensão, natureza e características da literatura disponível sobre um tema amplo, identificando conceitos-chave, tipos de evidência existentes e lacunas no conhecimento (Arksey; O’Malley, 2005).

Diferente da revisão sistemática, que busca responder a uma pergunta específica sobre eficácia ou efetividade, a revisão de escopo tem propósito exploratório. Ela oferece um panorama do campo antes de decisões sobre pesquisas mais aprofundadas.

NotaDefinição

“Scoping studies aim to map rapidly the key concepts underpinning a research area and the main sources and types of evidence available” (Arksey; O’Malley, 2005).

Tradução: Estudos de escopo visam mapear rapidamente os conceitos-chave que fundamentam uma área de pesquisa e as principais fontes e tipos de evidências disponíveis.

Características principais

Característica Descrição
Pergunta de pesquisa Ampla, exploratória
Protocolo Recomendado (registro no OSF)
Estratégia de busca Sistemática, abrangente
Seleção de estudos Critérios explícitos de inclusão/exclusão
Tipos de estudo Qualquer tipo de evidência
Avaliação de qualidade Geralmente não realizada
Síntese dos resultados Descritiva, mapeamento
Reprodutibilidade Moderada a alta

O que diferencia a revisão de escopo?

A característica distintiva é o objetivo de mapeamento, não de síntese de resultados. A revisão de escopo responde a perguntas como:

  • Que tipos de estudo existem sobre este tema?
  • Quais conceitos e definições são utilizados?
  • Quais populações têm sido estudadas?
  • Em que contextos as pesquisas foram realizadas?
  • Quais são as lacunas na literatura?
ImportanteDiferença fundamental

A revisão de escopo não avalia a qualidade metodológica dos estudos incluídos. Seu objetivo é descrever o que existe, não julgar o quão confiável é a evidência.

Quando usar a revisão de escopo?

Arksey & O’Malley (2005) identificaram quatro razões principais para conduzir uma revisão de escopo:

1. Examinar a extensão e natureza da literatura

Mapear o volume e as características dos estudos disponíveis sobre um tema, sem necessariamente descrevê-los em profundidade.

2. Determinar a viabilidade de uma revisão sistemática

Antes de investir tempo e recursos em uma revisão sistemática, verificar se há estudos suficientes e comparáveis.

3. Sumarizar e disseminar achados de pesquisa

Apresentar um panorama da literatura para profissionais, gestores ou formuladores de políticas.

4. Identificar lacunas na literatura

Apontar áreas que necessitam de mais pesquisa primária.

DicaExemplos de perguntas adequadas
  • “Quais intervenções têm sido estudadas para manejo de agitação em emergências psiquiátricas?”
  • “Como a telemedicina em saúde mental tem sido implementada em países de baixa renda?”
  • “Que instrumentos existem para avaliação de adesão ao tratamento em esquizofrenia?”

Observe que são perguntas amplas, que buscam mapear o que existe — não avaliar o que funciona.

Quando NÃO usar a revisão de escopo?

A revisão de escopo não é adequada quando:

  • O objetivo é avaliar a eficácia de uma intervenção específica
  • É necessário recomendar uma prática clínica baseada em evidências
  • A pergunta exige avaliação de qualidade metodológica
  • Já se sabe que a literatura é homogênea e uma revisão sistemática é viável

Framework metodológico

O framework original de Arksey; O’Malley (2005), aprimorado por Levac; Colquhoun; O’Brien (2010) e atualizado pelo JBI (Peters et al., 2020), propõe cinco etapas principais:

flowchart LR
    A["Pergunta de pesquisa"] --> B["Identificação dos estudos"]
    B --> C["Seleção dos estudos"]
    C --> D["Extração dos dados"]
    D --> E["Síntese e apresentação"]

Etapa 1: Definição da pergunta de pesquisa

A pergunta deve ser ampla o suficiente para capturar a diversidade da literatura, mas focada o bastante para ser gerenciável. Recomenda-se o uso do framework PCC:

Elemento Descrição Exemplo
P - População Quem são os participantes? Idosos com demência
C - Conceito Qual o fenômeno de interesse? Intervenções não farmacológicas
C - Contexto Em que setting ou circunstância? Instituições de longa permanência

Etapa 2: Identificação dos estudos relevantes

A busca deve ser abrangente, incluindo:

  • Bases de dados eletrônicas (PubMed, Embase, CINAHL, PsycINFO, LILACS)
  • Literatura cinzenta (teses, dissertações, relatórios técnicos)
  • Listas de referências dos estudos incluídos
  • Consulta a especialistas na área
AvisoAtenção

Diferente da revisão sistemática, a revisão de escopo pode ser iterativa — a estratégia de busca pode ser refinada à medida que você conhece melhor a literatura.

Etapa 3: Seleção dos estudos

Aplique critérios de inclusão e exclusão definidos a priori. A seleção deve ser feita por pelo menos dois revisores independentes, com resolução de discordâncias por consenso ou terceiro revisor.

Documente o processo usando o fluxograma PRISMA-ScR (Tricco et al., 2018).

Etapa 4: Extração dos dados (charting)

O charting é o processo de extração e organização das informações. Diferente da revisão sistemática, o foco não é extrair resultados numéricos, mas mapear características dos estudos:

  • Autor, ano, país
  • Objetivo do estudo
  • População e tamanho da amostra
  • Conceito ou intervenção estudada
  • Contexto
  • Tipo de estudo / delineamento
  • Principais achados (descritivos)
DicaDica prática

Crie uma planilha com as variáveis de interesse antes de iniciar a extração. Faça um piloto com 5-10 estudos para verificar se as categorias são adequadas e se é necessário ajustar.

Etapa 5: Síntese e apresentação dos resultados

A síntese na revisão de escopo é descritiva e visual. Inclui:

  • Descrição numérica (quantos estudos, de quais países, em que período)
  • Tabelas e gráficos de caracterização
  • Mapeamento temático dos conceitos identificados
  • Identificação de lacunas

PRISMA-ScR: o checklist para relato

O PRISMA-ScR (Tricco et al., 2018) é a extensão do PRISMA específica para revisões de escopo. Contém 22 itens que orientam o relato transparente da revisão:

  • Título identificando como scoping review
  • Protocolo registrado
  • Critérios de elegibilidade
  • Fontes de informação e estratégia de busca
  • Processo de seleção e extração
  • Resultados da busca (fluxograma)
  • Características dos estudos
  • Síntese dos resultados
  • Limitações

Exemplo de quadro de caracterização

Autor/Ano País Delineamento População Conceito estudado Contexto
Autor A, 2020 Brasil Transversal Residentes de psiquiatria Burnout Hospital universitário
Autor B, 2019 EUA Qualitativo Médicos emergencistas Estratégias de coping Pronto-socorro
Autor C, 2021 Canadá ECR Enfermeiros de UTI Mindfulness UTI adulto

Nota: Modelo ilustrativo. Em sua revisão, preencha com dados reais.

Vantagens

  • Amplitude: permite explorar temas amplos ou emergentes
  • Flexibilidade: não exige avaliação de qualidade metodológica
  • Visão panorâmica: identifica o que existe antes de aprofundar
  • Identificação de lacunas: útil para justificar novas pesquisas
  • Rapidez relativa: menos demorada que revisão sistemática completa

Limitações

  • Não avalia qualidade: não permite concluir sobre a confiabilidade das evidências
  • Não responde perguntas de eficácia: inadequada para decisões clínicas
  • Amplitude pode ser problema: temas muito amplos geram revisões superficiais
  • Síntese limitada: descreve, mas não integra ou interpreta profundamente

Revisão de escopo vs. sistemática

Aspecto Escopo Sistemática
Pergunta Ampla, exploratória Específica, focada
Objetivo Mapear a literatura Sintetizar evidências
Avaliação de qualidade Não Sim
Síntese Descritiva Analítica (quali ou quanti)
Meta-análise Não Possível
Tempo/recursos Moderado Alto
Uso principal Exploração, lacunas Decisão clínica, diretrizes

Resumo

NotaPontos-chave
  • A revisão de escopo mapeia a literatura, não sintetiza resultados
  • É indicada para temas amplos ou emergentes
  • Segue cinco etapas: pergunta, busca, seleção, extração, síntese
  • Utiliza o framework PCC (População, Conceito, Contexto)
  • Não avalia qualidade metodológica dos estudos
  • Deve ser relatada conforme o PRISMA-ScR (Tricco et al., 2018)
  • Útil para identificar lacunas e avaliar viabilidade de revisão sistemática

Leituras recomendadas

  • Arksey; O’Malley (2005) — Scoping studies: towards a methodological framework
  • Levac; Colquhoun; O’Brien (2010) — Scoping studies: advancing the methodology
  • Tricco et al. (2018) — PRISMA extension for scoping reviews (PRISMA-ScR)
  • Peters et al. (2020) — Updated methodological guidance for the conduct of scoping reviews

Próximo capítulo: Revisão Sistemática

Referências

ARKSEY, Hilary; O’MALLEY, Lisa. Scoping studies: towards a methodological framework. International Journal of Social Research Methodology, v. 8, n. 1, p. 19–32, 2005.
LEVAC, Danielle; COLQUHOUN, Heather; O’BRIEN, Kelly K. Scoping studies: advancing the methodology. Implementation Science, v. 5, n. 1, p. 69, 2010.
PETERS, Micah D. J. et al. Updated methodological guidance for the conduct of scoping reviews. JBI Evidence Synthesis, v. 18, n. 10, p. 2119–2126, 2020.
TRICCO, Andrea C. et al. PRISMA extension for scoping reviews (PRISMA-ScR): checklist and explanation. Annals of Internal Medicine, v. 169, n. 7, p. 467–473, 2018.