flowchart LR
A["Pergunta de pesquisa"] --> B["Identificação dos estudos"]
B --> C["Seleção dos estudos"]
C --> D["Extração dos dados"]
D --> E["Síntese e apresentação"]
Revisão de Escopo
Mapeando a literatura para compreender um campo de pesquisa
O que é uma revisão de escopo?
A revisão de escopo (scoping review ou scoping study) é um tipo de revisão que visa mapear a extensão, natureza e características da literatura disponível sobre um tema amplo, identificando conceitos-chave, tipos de evidência existentes e lacunas no conhecimento (Arksey; O’Malley, 2005).
Diferente da revisão sistemática, que busca responder a uma pergunta específica sobre eficácia ou efetividade, a revisão de escopo tem propósito exploratório. Ela oferece um panorama do campo antes de decisões sobre pesquisas mais aprofundadas.
“Scoping studies aim to map rapidly the key concepts underpinning a research area and the main sources and types of evidence available” (Arksey; O’Malley, 2005).
Tradução: Estudos de escopo visam mapear rapidamente os conceitos-chave que fundamentam uma área de pesquisa e as principais fontes e tipos de evidências disponíveis.
Características principais
| Característica | Descrição |
|---|---|
| Pergunta de pesquisa | Ampla, exploratória |
| Protocolo | Recomendado (registro no OSF) |
| Estratégia de busca | Sistemática, abrangente |
| Seleção de estudos | Critérios explícitos de inclusão/exclusão |
| Tipos de estudo | Qualquer tipo de evidência |
| Avaliação de qualidade | Geralmente não realizada |
| Síntese dos resultados | Descritiva, mapeamento |
| Reprodutibilidade | Moderada a alta |
O que diferencia a revisão de escopo?
A característica distintiva é o objetivo de mapeamento, não de síntese de resultados. A revisão de escopo responde a perguntas como:
- Que tipos de estudo existem sobre este tema?
- Quais conceitos e definições são utilizados?
- Quais populações têm sido estudadas?
- Em que contextos as pesquisas foram realizadas?
- Quais são as lacunas na literatura?
A revisão de escopo não avalia a qualidade metodológica dos estudos incluídos. Seu objetivo é descrever o que existe, não julgar o quão confiável é a evidência.
Quando usar a revisão de escopo?
Arksey & O’Malley (2005) identificaram quatro razões principais para conduzir uma revisão de escopo:
1. Examinar a extensão e natureza da literatura
Mapear o volume e as características dos estudos disponíveis sobre um tema, sem necessariamente descrevê-los em profundidade.
2. Determinar a viabilidade de uma revisão sistemática
Antes de investir tempo e recursos em uma revisão sistemática, verificar se há estudos suficientes e comparáveis.
3. Sumarizar e disseminar achados de pesquisa
Apresentar um panorama da literatura para profissionais, gestores ou formuladores de políticas.
4. Identificar lacunas na literatura
Apontar áreas que necessitam de mais pesquisa primária.
- “Quais intervenções têm sido estudadas para manejo de agitação em emergências psiquiátricas?”
- “Como a telemedicina em saúde mental tem sido implementada em países de baixa renda?”
- “Que instrumentos existem para avaliação de adesão ao tratamento em esquizofrenia?”
Observe que são perguntas amplas, que buscam mapear o que existe — não avaliar o que funciona.
Quando NÃO usar a revisão de escopo?
A revisão de escopo não é adequada quando:
- O objetivo é avaliar a eficácia de uma intervenção específica
- É necessário recomendar uma prática clínica baseada em evidências
- A pergunta exige avaliação de qualidade metodológica
- Já se sabe que a literatura é homogênea e uma revisão sistemática é viável
Framework metodológico
O framework original de Arksey; O’Malley (2005), aprimorado por Levac; Colquhoun; O’Brien (2010) e atualizado pelo JBI (Peters et al., 2020), propõe cinco etapas principais:
Etapa 1: Definição da pergunta de pesquisa
A pergunta deve ser ampla o suficiente para capturar a diversidade da literatura, mas focada o bastante para ser gerenciável. Recomenda-se o uso do framework PCC:
| Elemento | Descrição | Exemplo |
|---|---|---|
| P - População | Quem são os participantes? | Idosos com demência |
| C - Conceito | Qual o fenômeno de interesse? | Intervenções não farmacológicas |
| C - Contexto | Em que setting ou circunstância? | Instituições de longa permanência |
Etapa 2: Identificação dos estudos relevantes
A busca deve ser abrangente, incluindo:
- Bases de dados eletrônicas (PubMed, Embase, CINAHL, PsycINFO, LILACS)
- Literatura cinzenta (teses, dissertações, relatórios técnicos)
- Listas de referências dos estudos incluídos
- Consulta a especialistas na área
Diferente da revisão sistemática, a revisão de escopo pode ser iterativa — a estratégia de busca pode ser refinada à medida que você conhece melhor a literatura.
Etapa 3: Seleção dos estudos
Aplique critérios de inclusão e exclusão definidos a priori. A seleção deve ser feita por pelo menos dois revisores independentes, com resolução de discordâncias por consenso ou terceiro revisor.
Documente o processo usando o fluxograma PRISMA-ScR (Tricco et al., 2018).
Etapa 4: Extração dos dados (charting)
O charting é o processo de extração e organização das informações. Diferente da revisão sistemática, o foco não é extrair resultados numéricos, mas mapear características dos estudos:
- Autor, ano, país
- Objetivo do estudo
- População e tamanho da amostra
- Conceito ou intervenção estudada
- Contexto
- Tipo de estudo / delineamento
- Principais achados (descritivos)
Crie uma planilha com as variáveis de interesse antes de iniciar a extração. Faça um piloto com 5-10 estudos para verificar se as categorias são adequadas e se é necessário ajustar.
Etapa 5: Síntese e apresentação dos resultados
A síntese na revisão de escopo é descritiva e visual. Inclui:
- Descrição numérica (quantos estudos, de quais países, em que período)
- Tabelas e gráficos de caracterização
- Mapeamento temático dos conceitos identificados
- Identificação de lacunas
PRISMA-ScR: o checklist para relato
O PRISMA-ScR (Tricco et al., 2018) é a extensão do PRISMA específica para revisões de escopo. Contém 22 itens que orientam o relato transparente da revisão:
- Título identificando como scoping review
- Protocolo registrado
- Critérios de elegibilidade
- Fontes de informação e estratégia de busca
- Processo de seleção e extração
- Resultados da busca (fluxograma)
- Características dos estudos
- Síntese dos resultados
- Limitações
Exemplo de quadro de caracterização
| Autor/Ano | País | Delineamento | População | Conceito estudado | Contexto |
|---|---|---|---|---|---|
| Autor A, 2020 | Brasil | Transversal | Residentes de psiquiatria | Burnout | Hospital universitário |
| Autor B, 2019 | EUA | Qualitativo | Médicos emergencistas | Estratégias de coping | Pronto-socorro |
| Autor C, 2021 | Canadá | ECR | Enfermeiros de UTI | Mindfulness | UTI adulto |
Nota: Modelo ilustrativo. Em sua revisão, preencha com dados reais.
Vantagens
- Amplitude: permite explorar temas amplos ou emergentes
- Flexibilidade: não exige avaliação de qualidade metodológica
- Visão panorâmica: identifica o que existe antes de aprofundar
- Identificação de lacunas: útil para justificar novas pesquisas
- Rapidez relativa: menos demorada que revisão sistemática completa
Limitações
- Não avalia qualidade: não permite concluir sobre a confiabilidade das evidências
- Não responde perguntas de eficácia: inadequada para decisões clínicas
- Amplitude pode ser problema: temas muito amplos geram revisões superficiais
- Síntese limitada: descreve, mas não integra ou interpreta profundamente
Revisão de escopo vs. sistemática
| Aspecto | Escopo | Sistemática |
|---|---|---|
| Pergunta | Ampla, exploratória | Específica, focada |
| Objetivo | Mapear a literatura | Sintetizar evidências |
| Avaliação de qualidade | Não | Sim |
| Síntese | Descritiva | Analítica (quali ou quanti) |
| Meta-análise | Não | Possível |
| Tempo/recursos | Moderado | Alto |
| Uso principal | Exploração, lacunas | Decisão clínica, diretrizes |
Resumo
- A revisão de escopo mapeia a literatura, não sintetiza resultados
- É indicada para temas amplos ou emergentes
- Segue cinco etapas: pergunta, busca, seleção, extração, síntese
- Utiliza o framework PCC (População, Conceito, Contexto)
- Não avalia qualidade metodológica dos estudos
- Deve ser relatada conforme o PRISMA-ScR (Tricco et al., 2018)
- Útil para identificar lacunas e avaliar viabilidade de revisão sistemática
Leituras recomendadas
- Arksey; O’Malley (2005) — Scoping studies: towards a methodological framework
- Levac; Colquhoun; O’Brien (2010) — Scoping studies: advancing the methodology
- Tricco et al. (2018) — PRISMA extension for scoping reviews (PRISMA-ScR)
- Peters et al. (2020) — Updated methodological guidance for the conduct of scoping reviews
Próximo capítulo: Revisão Sistemática