Intencionalidade, Vontade, Impulsividade e Livre Arbítrio
Uma Jornada entre Neurociência, Psiquiatria e Filosofia
1 Introdução
Ao longo da história da psiquiatria e da filosofia, poucos temas suscitaram tantas disputas quanto a natureza do agir humano. A fronteira entre querer, decidir e executar sempre foi objeto de reflexão, produzindo noções como vontade, impulso, intenção e livre-arbítrio. Embora hoje pareçam conceitos familiares, sua definição está longe de ser pacífica. A literatura psicopatológica contemporânea evidencia que essas noções permanecem complexas, interdependentes e, em muitos aspectos, insuficientemente delimitadas (1).
A vontade, que era um conceito importante na psiquiatria do século XIX — “um conceito descritivo e explicativo importante, que se referia ao ‘poder, força ou faculdade’ humana de iniciar uma ação” — perdeu seu status na literatura psiquiátrica contemporânea (2). Esse declínio decorre, em grande parte, da transição da psicopatologia clássica — fortemente ancorada em categorias como abulia, hiperbulia e distúrbios volitivos — para modelos neurobiológicos e classificatórios que privilegiaram sintomas observáveis e operacionalizáveis. Com a ascensão dos manuais diagnósticos padronizados e da neurociência cognitiva, a ideia de “vontade” foi gradualmente substituída por descrições de funções executivas, tomada de decisão, autocontrole e motivação, esvaziando seu papel como categoria clínica autônoma (3).
Se, na psiquiatria contemporânea, a “vontade” perdeu a posição central que ocupou no século XIX, nas tradições religiosas ela permaneceu como um eixo estrutural da vida moral e espiritual. Da luta interior agostiniana entre inclinações opostas, passando pela vontade racional de Tomás de Aquino, pela disciplina da mente nas tradições orientais e pela tensão entre impulso e autocontrole nas éticas judaica e islâmica, a noção de vontade sempre foi concebida como força que orienta o sujeito diante do bem, do mal e do sagrado. Esse contraste entre o declínio do conceito na psiquiatria e sua permanência vigorosa na religião abre um campo fértil para examinar a vontade não apenas como categoria psicológica, mas como uma forma culturalmente situada de compreender a ação humana.
Nos últimos anos, o interesse pelo tema da intencionalidade ganhou novo fôlego, impulsionado pelos debates sobre a possibilidade — ou impossibilidade — de atribuir consciência ou estados mentais às inteligências artificiais modernas. À medida que sistemas de linguagem passam a produzir respostas coerentes, interpretar contextos, descrever estados mentais e até oferecer justificativas para suas ações, ressurge a antiga questão sobre se a intencionalidade pode existir sem um sujeito consciente ou se tais performances constituem apenas uma simulação sofisticada da estrutura do pensamento intencional (4,5). A discussão contemporânea sobre agência artificial, fenomenologia sintética1 e alinhamento2 reacendeu, portanto, o interesse filosófico em compreender o que significa estar orientado a algo — e se essa orientação pode, de algum modo, ser reproduzida por máquinas.
Essas não são discussões meramente retóricas ou especulações filosóficas abstratas. Elas tocam o cerne da experiência humana e têm profundas implicações para como compreendemos a psicopatologia, a responsabilidade moral, o tratamento psiquiátrico e até mesmo nosso sistema de justiça. Afinal, como podemos responsabilizar alguém por seus atos se suas “escolhas” podem ser consequência direta de disfunções cerebrais específicas? A questão torna-se ainda mais urgente quando consideramos transtornos psiquiátricos que afetam precisamente esses processos. Um paciente com jogo patológico que perde toda sua fortuna no cassino — ele realmente “escolheu” jogar? (6). Uma pessoa com síndrome apático-abúlica que permanece imóvel no leito, incapaz de iniciar qualquer ação — ela “decide” não se mover (7)? Um indivíduo com Parkinson tratado com agonistas dopaminérgicos que desenvolve compulsão súbita por jogo e sexo — esses “desejos” são propriamente seus ?(8). E um homem com um tumor cerebral que comete atos violentos extremos — ele é “responsável” por suas ações? (9).
Este texto argumenta que existe um continuum entre flexibilidade biológica e determinação biológica. Em um extremo, temos o cérebro funcionando de forma saudável — operando como sistema caótico complexo, preservando múltiplos graus de liberdade, capaz de adaptação flexível a contextos variados. No outro extremo, temos patologias onde circuitos específicos foram lesados, perturbados ou desregulados de forma que o comportamento se torna rígido, inflexível, compulsivo — genuinamente determinado por forças biológicas que ultrapassaram limiares críticos (3,7). Patologia mental, nesta visão, não é revelação de que “livre arbítrio sempre foi ilusão”, mas o colapso de flexibilidade em determinação, a perda de graus de liberdade que normalmente possuímos. Para desenvolver esta tese, examinaremos evidências da neurobiologia da volição, explorando como consciência e temporalidade se relacionam, como a vontade pode ser abolida por lesões específicas, como manipulações neuroquímicas modulam comportamento, e como tumores cerebrais podem forçar ações que a pessoa conscientemente abomina. Estas evidências, interpretadas à luz de sistemas dinâmicos, nos permitirão propor uma compreensão mais nuançada da agência humana — uma que reconhece tanto as limitações biológicas quanto a genuína flexibilidade que caracteriza o funcionamento cerebral saudável.
Referências
Notas de rodapé
Fenomenologia sintética designa a possibilidade teórica de que sistemas artificiais venham a apresentar algum tipo de experiência subjetiva, aproximando-se das dimensões fenomenais da consciência humana.↩︎
Alinhamento é o campo que busca garantir que sistemas de IA ajam de acordo com valores e objetivos humanos, o que reativa discussões sobre intenção, agência e interpretação de comandos.↩︎