1 Prefácio
Este livro nasce de uma inquietação: como compreender a agência humana sem reduzi-la a um fantasma metafísico nem dissolvê-la em mecanismos cegos? A questão do livre-arbítrio, tal como costuma ser formulada — somos ou não determinados? —, revela-se insuficiente. Ela pressupõe uma vontade que simplesmente existe ou não existe, funciona ou não funciona. Mas a experiência clínica e a reflexão filosófica mostram algo mais complexo: uma capacidade de agir que se estrutura, se mantém, se articula — e que pode falhar de modos diversos.
O fio condutor desta investigação é a teoria da intencionalidade prática desenvolvida por Michael Bratman. Para Bratman, seres humanos são agentes planejadores: formamos intenções que se estendem no tempo, organizamos planos hierárquicos, coordenamos o presente com compromissos futuros. Essa arquitetura não é um luxo cognitivo — é condição de possibilidade para qualquer forma complexa de agência. E é também o que se fragiliza em condições como a impulsividade, os transtornos do controle de impulsos, as alterações frontais, as perturbações obsessivo-compulsivas.
O percurso do livro começa pelo debate contemporâneo sobre livre-arbítrio, mas rapidamente se desloca. Veremos que a pergunta “somos livres?” precisa ser complementada por outra: como se estrutura a ação intencional? Para responder, reconstituímos a história do conceito de vontade — dos gregos a Agostinho, dos medievais aos modernos, de Davidson a Bratman. Esse trajeto histórico não é antiquário: cada etapa revela dimensões do problema que a formulação anterior deixava na sombra.
Com a teoria de Bratman como base conceitual, examinamos então a impulsividade — não como simples “falta de controle”, mas como família de fenômenos que afetam diferentes pontos da arquitetura do planejamento. A análise de casos clínicos mostra que as limitações da agência não são especulações abstratas, mas realidades que se manifestam no cotidiano do sofrimento psíquico.
O livro explora ainda as bases neurais dessa arquitetura. O conceito de metaestabilidade, desenvolvido por J.A. Scott Kelso, oferece uma ponte entre o nível das razões e intenções e o nível dos processos cerebrais. A neuroquímica da motivação e da inibição — dopamina, serotonina e seus circuitos — ilumina como o sistema nervoso sustenta ou sabota a estabilidade dos planos. O problema dos graus de liberdade, formulado originalmente por Bernstein para o controle motor, revela-se surpreendentemente pertinente para pensar a coordenação da ação intencional.
A tese que orienta o projeto é que a liberdade deve ser compreendida como propriedade emergente e graduada. Ela depende da flexibilidade dinâmica do sistema nervoso, da estrutura normativa das práticas sociais e da capacidade linguística de organizar a experiência em termos de razões e projetos. Não se trata de defender ou negar o livre-arbítrio em bloco, mas de compreender as condições sob as quais a agência se constitui — e sob as quais ela se deteriora.
Este texto destina-se a quem busca pensar a ação humana com rigor conceitual e atenção empírica: estudantes e profissionais de psicologia, psiquiatria, filosofia e áreas afins. Não oferece respostas definitivas, mas instrumentos para formular melhor as perguntas. Pois só podemos avaliar adequadamente o que significa ser livre, e o que significa ser responsável, se compreendermos primeiro o que significa agir.