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Henrique Alvarenga da Silva

Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)

1 Vontade e Impulsividade: Origens

1.1 Introdução

A impulsividade, tal como a compreendemos na psicopatologia contemporânea, só adquire sentido contra o pano de fundo de uma concepção de vontade como instância que deveria governar a ação. Quando afirmamos que alguém agiu “impulsivamente”, pressupomos que algo — um impulso, uma paixão, um desejo — usurpou o lugar que deveria pertencer à deliberação voluntária. A impulsividade, nesse sentido, define-se negativamente como falha, ausência ou insuficiência de controle volitivo.

Essa aparente obviedade esconde, contudo, uma história filosófica complexa. O conceito de vontade como faculdade psíquica distinta é uma construção teórica relativamente tardia na história do pensamento ocidental. Recuperar essa história permite iluminar pressupostos frequentemente invisíveis nas abordagens clínicas e neurocientíficas contemporâneas, além de revelar que a própria noção de “perda de controle voluntário” carrega sedimentos conceituais de tradições filosóficas e teológicas específicas.

O presente texto propõe investigar a relação entre vontade e impulsividade, traçando a emergência do conceito de vontade em Agostinho, suas elaborações medievais e modernas, e sua problematização radical no pensamento de Schopenhauer, Nietzsche e na filosofia contemporânea.

1.2 O Antecedente Grego: Akrasia

Os gregos, em suas tentativas de analisar e avaliar a ação humana, nunca desenvolveram um conceito distinto de vontade (Dihle, 1982, p. 86), mas foi precisamente a tradição grega que formulou um dos problemas centrais que mais tarde tornariam tal conceito necessário: a akrasia (ἀκρασία). Na literatura contemporânea, a akrasia (ἀκρασία), tal como formulado por Aristóteles, é amplamente interpretado como o problema da fraqueza da vontade (weakness of will), isto é, a possibilidade de agir contra o próprio melhor juízo racional (Stroud; Svirsky (2025); Davidson (2001)).

O problema pode ser formulado assim: como é possível que alguém, sabendo que determinada ação é prejudicial ou errada, ainda assim a realize? Sócrates considerava isso impossível — ninguém faz o mal voluntariamente; quem age mal simplesmente desconhece o bem. Aristóteles, mais atento à fenomenologia da vida moral, reconheceu a akrasia como fenômeno genuíno que demandava explicação.

O que faltava aos gregos, contudo, era uma instância psíquica que pudesse mediar entre razão e desejo — uma faculdade capaz de decidir seguir a razão contra a pressão dos apetites. Seria necessária a confluência de tradições hebraicas e gregas no pensamento cristão para que emergisse o conceito de vontade que ainda hoje estrutura nossa compreensão da impulsividade.

1.3 Agostinho e a Invenção da Vontade

1.3.1 O Nascimento de uma Faculdade

Agostinho de Hipona (354-430) é frequentemente creditado como o “inventor” do conceito de vontade (voluntas) como faculdade psíquica distinta e central à vida interior. Essa inovação conceitual não surgiu de especulação abstrata, mas de necessidades teológicas precisas e, sobretudo, da atenção introspectiva aguda de Agostinho à sua própria experiência. O problema que impelia Agostinho era simultaneamente pessoal e doutrinal. Pessoalmente, sua conversão tardia ao cristianismo — narrada nas Confissões — envolveu longa luta contra desejos que ele mesmo reprovava. Doutrinalmente, Agostinho enfrentava o maniqueísmo, que explicava o mal pela existência de dois princípios cósmicos opostos (Luz e Trevas, Bem e Mal), e o pelagianismo, que afirmava a capacidade humana de alcançar a virtude pelo próprio esforço. Contra os maniqueus, Agostinho precisava mostrar que o mal não vem de fora, de um princípio estranho à alma, mas da própria vontade humana. Contra os pelagianos, precisava mostrar que a vontade humana, embora livre, está ferida e não consegue, por si só, querer eficazmente o bem.

1.3.2 A Vontade Dividida

A contribuição mais original de Agostinho reside em sua descrição fenomenológica da vontade dividida contra si mesma. No Livro VIII das Confissões, ele narra o momento decisivo de sua conversão no jardim de Milão, mas o que interessa filosoficamente é a análise da experiência que precedeu esse momento:

“De onde vem esse prodígio monstruoso? E por quê? A alma comanda o corpo e é imediatamente obedecida; a alma comanda a si mesma e encontra resistência. A alma comanda que a mão se mova, e há tal facilidade que mal se distingue a ordem da execução. E contudo a alma é alma, e a mão é corpo. A alma comanda que a alma queira: não é outra, e contudo não o faz.”

A novidade aqui é que o conflito não é entre razão e apetite, como em Aristóteles, mas interno à própria vontade. Não é que o corpo desobedeça à alma, ou que desejos irracionais se oponham à razão. É a vontade que não consegue obedecer a si mesma. Agostinho queria ser casto — era um querer genuíno, não mera opinião sobre o que seria melhor — mas não queria plenamente, não queria com a totalidade de sua vontade. A vontade estava dividida.

“Eu era quem queria, eu era quem não queria: era eu mesmo. Nem plenamente queria, nem plenamente não queria. Por isso lutava comigo mesmo e me dilacerava a mim mesmo.”

Essa descrição inaugura uma compreensão da vida interior que permanece central na psicologia ocidental: a possibilidade de conflito intrapsíquico genuíno que não se reduz à ignorância nem à invasão por forças externas, mas constitui cisão interna ao próprio sujeito.

1.3.3 Implicações para a Impulsividade

A análise agostiniana tem consequências importantes para a compreensão da impulsividade. Primeiro, ela estabelece que o mero conhecimento do bem é insuficiente para garanti-lo — a vontade tem densidade própria irredutível ao intelecto. Segundo, ela localiza o problema não na oposição entre faculdades distintas (razão versus apetite), mas na fragmentação interna de uma faculdade que deveria ser una. Terceiro, e mais importante, ela sugere que a impulsividade — entendida como ação contra o próprio melhor juízo — não é simplesmente déficit de controle, mas expressão de uma vontade que quer contraditoriamente, que não coincide consigo mesma. A solução agostiniana para essa condição é teológica: apenas a graça divina pode unificar a vontade fragmentada, curando-a de sua divisão. Mas o diagnóstico permanece válido independentemente da terapêutica proposta. A experiência de querer e não conseguir querer plenamente, de estar dividido contra si mesmo, é fenomenologicamente reconhecível e clinicamente relevante. A pessoa que luta contra comportamentos impulsivos frequentemente não é simplesmente “dominada” por forças estranhas a si, mas vive precisamente essa divisão interna que Agostinho foi o primeiro a descrever com precisão.

Referências

DAVIDSON, Donald. How Is Weakness of the Will Possible? In: Essays on Actions and Events. Second ed. Oxford: Clarendon Press, 2001. p. 21–42.
DIHLE, Albrecht. The Theory of Will in Classical Antiquity. Berkeley: University of California Press, 1982.
STROUD, Sarah; SVIRSKY, Larisa. Weakness of Will. In: ZALTA, Edward N.; NODELMAN, Uri (Orgs.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Fall 2025 ed. [S.l.]: https://plato.stanford.edu/archives/fall2025/entries/weakness-will/; Metaphysics Research Lab, Stanford University, 2025.