Casos Clínicos
Escolha um caso e elabore o Exame do Estado Mental completo
1 Instruções
Leia atentamente os casos clínicos apresentados abaixo. Escolha UM dos casos e elabore um Exame do Estado Mental completo, seguindo o roteiro fornecido. Utilize os descritores apropriados para cada item do exame.
Ao final, redija uma súmula do exame psíquico, resumindo de forma concisa os achados mais relevantes utilizando terminologia técnica apropriada.
2 Maria, 34 anos
Maria é trazida ao pronto-socorro psiquiátrico pela irmã, que relata preocupação com seu comportamento nas últimas três semanas. Durante a entrevista, Maria se apresenta vestindo roupas escuras, cabelos desarrumados, unhas sujas. Ela entra na sala lentamente, ombros caídos, olhar cabisbaixo. Senta-se na cadeira de forma retraída, braços cruzados.
Ao ser questionada, Maria mantém contato visual apenas brevemente, desviando o olhar para o chão. Responde às perguntas com voz baixa, quase inaudível, demorando vários segundos antes de cada resposta. Suas respostas são monossilábicas inicialmente: “sim”, “não”, “não sei”.
Quando perguntada sobre como está se sentindo, Maria demora cerca de 20 segundos e responde: “Vazia… sem sentido… nada importa mais”. Lágrimas começam a escorrer por seu rosto, mas ela não faz nenhum esforço para limpá-las.
Maria sabe que está no hospital, reconhece que é terça-feira, mas não tem certeza se estamos em março ou abril. Ela sabe seu nome e idade. Quando solicitada a repetir três palavras (mesa, cadeira, chave), consegue fazê-lo. Após cinco minutos de conversa, quando perguntada sobre as três palavras, ela lembra apenas de “mesa”.
Durante toda a entrevista, Maria se movimenta muito pouco. Suas expressões faciais são mínimas. Quando perguntada se tem apetite, ela balança a cabeça negativamente. Sobre o sono, responde: “Acordo às três da manhã e fico pensando… pensando que sou um peso para todos, que seria melhor se eu não estivesse aqui”.
Quando questionada diretamente sobre pensamentos de se machucar, Maria hesita longamente e finalmente sussurra: “Penso… às vezes… que não aguento mais”. Ela nega ter feito planos específicos, mas admite que “tem guardado” alguns comprimidos que sobraram de tratamentos anteriores.
Maria relata que nos últimos meses perdeu o interesse em tudo que antes gostava - cozinhar, assistir suas séries favoritas, sair com amigas. “Nada me dá prazer mais… é como se eu não sentisse nada, só um vazio pesado”, diz ela com voz monótona.
Questionada sobre o que causou essa mudança, Maria diz: “Eu falhei… perdi meu emprego, decepcionei minha família… sou um fracasso completo”. Quando a irmã tenta contradizê-la, dizendo que ela foi demitida por cortes na empresa, Maria balança a cabeça: “Não, foi porque eu não sirvo para nada mesmo”.
Maria reconhece que está se sentindo mal e aceita quando é sugerido que ela precisa de ajuda, embora sem demonstrar muita expectativa: “Não sei se vai adiantar, mas tudo bem, vamos tentar”.
3 João, 28 anos
João chega ao consultório caminhando rapidamente, entra na sala sem esperar ser chamado, e imediatamente começa a falar antes mesmo de se sentar: “Doutor, finalmente! Tenho tantas ideias incríveis para compartilhar com o senhor! O senhor não vai acreditar no que descobri!”
Ele está vestido com roupas coloridas - uma camisa amarela vibrante, calça vermelha, tênis laranja. Usa vários colares e pulseiras. Seus cabelos estão despenteados, mas ele parece não se importar. Há um perfume forte.
Durante toda a entrevista, João não para de se movimentar. Levanta-se, senta-se, anda pela sala, gesticula amplamente. Fala muito rápido, pulando de um assunto para outro: “Então, doutor, eu estava pensando em abrir três empresas - não, quatro! - uma de tecnologia, outra de moda, uma de culinária e… ah sim! Uma gravadora, porque eu componho músicas agora, sabe? Aliás, o senhor gosta de música? Eu estou escrevendo uma sinfonia, vai revolucionar a música clássica!”
Quando tentamos fazer uma pergunta, João nos interrompe repetidamente. Ele fala sem parar por vários minutos, pulando de tema em tema. Quando perguntamos sobre sono, ele diz: “Dormir? Quem precisa dormir quando há tanto para fazer? Durmo umas duas, três horas e acordo cheio de energia! Aliás, o sono é superestimado, Einstein dormia pouco, sabia?”
João parece extremamente alegre, sorrindo constantemente, rindo alto de suas próprias piadas. Quando perguntamos se ele está se sentindo bem, ele responde: “Bem? Doutor, eu nunca me senti tão incrível na vida! Estou no auge, no topo do mundo! Sabe por quê? Porque descobri que tenho um propósito especial, uma missão!”
Questionado sobre essa “missão”, João se aproxima, baixa a voz como se contando um segredo: “Eu vou mudar o mundo, doutor. Tenho conexões especiais… o universo se comunica comigo através de sinais. Ontem, por exemplo, vi um carro vermelho seguido de um azul - isso significa que minha empresa de tecnologia vai ser um sucesso!”
Durante a conversa, João pega seu celular várias vezes, mostra fotos e vídeos, tenta tocar uma música que compôs. Menciona ter gasto R$ 15.000 em equipamento de música nos últimos três dias. “Mas tudo bem, doutor, porque eu vou ganhar milhões! Na verdade, já estou conversando com investidores - bem, na verdade mandei e-mails para várias pessoas importantes, tenho certeza que vão responder!”
João sabe o dia, mês, ano, onde está. Consegue fazer cálculos matemáticos simples rapidamente, embora se impaciente com a lentidão da tarefa. Quando tentamos aprofundar perguntas sobre sua família ou trabalho, ele muda rapidamente de assunto.
A família relata, quando João sai brevemente da sala, que ele dormiu apenas 2 horas por noite na última semana, gastou todas as economias, e foi demitido do emprego por comportamento inadequado (chegava atrasado, fazia brincadeiras inapropriadas, discutia com chefes).
Quando sugerimos que João talvez precise de um acompanhamento, ele responde: “Acompanhamento? Doutor, com todo respeito, mas quem precisa de tratamento são as pessoas negativas que não conseguem acompanhar meu ritmo! Mas tudo bem, venho aqui para conversar se o senhor quiser, adoro conversar!” Ele não demonstra nenhum reconhecimento de que seu comportamento possa ser problemático.
4 Carlos, 42 anos
Carlos entra na sala de entrevista olhando ao redor com atenção, verificando os cantos, olhando para trás antes de fechar a porta. Ele está vestido adequadamente, higiene preservada, mas nota-se uma tensão em sua postura - ombros contraídos, punhos cerrados.
Ao sentar-se, Carlos escolhe uma cadeira que lhe permite ver a porta. Mantém contato visual, mas de forma intensa, quase penetrante. Quando o entrevistador se move, Carlos acompanha com o olhar.
“Bom dia, doutor”, ele diz com voz controlada. “Antes de começarmos, preciso saber: quem mais vai ter acesso ao que eu disser aqui? Essa conversa está sendo gravada? Há câmeras nesta sala?”
Após ser reassegurado sobre confidencialidade, Carlos começa a falar, inicialmente com hesitação: “Eu vim porque minha esposa insistiu… ela diz que eu estou ‘paranóico’, mas ela não entende o que está acontecendo realmente”.
Carlos explica que nos últimos seis meses percebeu que está sendo vigiado. “No início achei que era coincidência, mas agora tenho certeza. Há um carro que sempre está estacionado perto de casa - às vezes é preto, às vezes azul, mas eu sei que é o mesmo grupo”. Quando perguntado sobre evidências, Carlos responde: “É óbvio! O carro sempre está lá quando saio. E tem mais: meu computador está sendo hackeado. Encontrei arquivos movidos de lugar, e tenho certeza que não fui eu”.
Ele continua: “No trabalho também. As pessoas sussurram quando passo, olham para mim de forma estranha. Ouvi meu chefe falando ao telefone outro dia, ele disse ‘temos que fazer algo a respeito dele’ - eu sei que estava falando de mim”.
Carlos sabe o dia, hora, onde está, seus dados pessoais. Sua memória está preservada. Ele fala de forma organizada, articulada, usa vocabulário adequado. No entanto, sempre retorna aos temas de vigilância e conspirações.
“Doutor, eu não sou louco”, ele diz enfaticamente. “Sei exatamente o que estou falando. Tenho até um caderno onde anoto todas as evidências - horários em que vejo o carro, nomes de pessoas que agem de forma suspeita. Quer ver?” Ele tira um caderno do bolso com dezenas de páginas preenchidas com anotações detalhadas.
Quando questionado sobre o motivo de alguém querer vigiá-lo, Carlos hesita: “Ainda estou tentando descobrir… talvez seja relacionado ao meu trabalho. Trabalho com TI, tenho acesso a informações confidenciais. Ou talvez… talvez tenha a ver com algo que descobri sem querer”.
Sua expressão facial durante toda a entrevista é séria, tensa. Não demonstra alegria ou tristeza marcantes, mas uma preocupação constante. Ele não dorme bem - “fico alerta, qualquer barulho me acorda”. Seu apetite está normal.
Carlos nega ouvir vozes ou ver coisas que outros não veem. “Não sou esquizofrênico, doutor. Eu sei diferenciar realidade de fantasia. O que está acontecendo é REAL”. Ele se torna levemente irritado quando o entrevistador sugere que suas percepções possam não ser acuradas.
Quando perguntado se gostaria de tratamento, Carlos responde: “Tratamento para quê? Eu não estou doente! Vim aqui porque minha esposa está ameaçando me deixar se eu não vier. Mas o problema não sou eu - é ela que não acredita em mim”.
Apesar da resistência, Carlos concorda em continuar conversando “para provar que não há nada de errado comigo”.
5 Ana, 19 anos
Ana é trazida pelos pais após um episódio em que foi encontrada no banheiro tentando “tirar as formigas que estavam debaixo de sua pele” com uma tesoura, causando vários cortes superficiais nos braços.
Ela entra na sala lentamente, olhando ao redor de forma confusa. Está vestida com um pijama, chinelos, cabelos desgrenhados. Há manchas de comida na blusa. Ela parece não se importar com sua aparência.
Ana senta-se e olha para o entrevistador com olhos arregalados. Quando cumprimentada, ela demora a responder, como se processasse as palavras lentamente. “Oi…”, diz finalmente com voz baixa e sem entonação.
Quando perguntada sobre seu nome, ela responde corretamente. Sobre a data, hesita: “É… setembro? Ou outubro?” (Estamos em junho). Sobre onde está: “No… hospital? Acho que é um hospital”. Ela sabe que tem 19 anos, mas quando perguntada sobre sua data de nascimento exata, ela franze a testa: “15… 15 de… espera… não lembro”.
Durante a entrevista, Ana frequentemente olha para o canto da sala, como se visse algo ali. Em um momento, ela aponta: “Você está vendo aquela mulher ali?” Quando o entrevistador diz que não vê ninguém, Ana parece confusa: “Mas ela está bem ali… de vestido branco… ela fica me olhando”.
Ana então começa a coçar os braços vigorosamente. “Elas estão voltando”, diz angustiada. “As formigas… elas entram pela minha pele e andam dentro de mim. Posso sentir elas caminhando nas minhas veias”. Ela mostra os braços ao entrevistador. “Você não vê? Tem tantas!”
Quando se tenta conversar com Ana sobre outros assuntos, ela tem dificuldade em manter o foco. Suas respostas são vagas e às vezes não fazem sentido. Perguntada sobre sua família, ela diz: “Família… pássaros… voando… preciso voar também”. Essa resposta não parece ter conexão lógica com a pergunta.
Em outro momento, Ana interrompe a conversa abruptamente: “Silêncio! Você ouve? As vozes… elas estão falando sobre mim”. Quando perguntado o que as vozes dizem, ela responde: “Dizem que sou suja… que preciso me limpar… que as formigas vão me devorar se eu não tirar elas de dentro de mim”.
A expressão facial de Ana é relativamente vazia, com pouca variação emocional. Mesmo quando fala sobre as vozes e as formigas, não demonstra o grau de ansiedade que seria esperado. Sua voz permanece monótona.
Quando se pede que Ana repita três palavras (gato, mesa, flor), ela consegue repetir imediatamente. Mas após dois minutos, quando perguntada novamente, ela não consegue lembrar nenhuma das palavras. “Não me lembro… havia palavras? Ah sim… eram… não sei”.
Ana se movimenta pouco durante a entrevista. Seus gestos são lentos, como se ela estivesse em câmera lenta. Ela ocasionalmente faz movimentos estranhos com as mãos, como se estivesse tentando pegar algo no ar.
Perguntada se ela acha que está doente ou se precisa de ajuda, Ana parece não compreender a pergunta inicialmente. Depois de repetida, ela diz: “Doente? Não… bem, as formigas… mas todo mundo tem formigas, não tem? Não? Então… talvez… não sei”.
Os pais relatam que Ana era uma estudante brilhante até seis meses atrás, quando começou a “mudar completamente” - isolou-se, parou de ir às aulas, começou a fazer comentários estranhos sobre ser vigiada e sobre “coisas caminhando dentro dela”.
6 Roberto, 55 anos
Roberto é trazido ao consultório pela filha, que aguarda na recepção. Ele entra na sala caminhando lentamente, levemente curvado. Veste-se adequadamente - calça social, camisa, sapatos limpos - mas parece ter dificuldade de coordenar os movimentos. Ao sentar, precisa se apoiar nos braços da cadeira.
O entrevistador nota que Roberto tem um leve tremor nas mãos, principalmente quando em repouso. Sua face tem uma expressão fixa, com poucos movimentos da mímica facial, dando-lhe uma aparência de “máscara”.
“Bom dia, doutor”, ele diz, articulando as palavras com alguma dificuldade, como se sua língua estivesse “grossa”. Sua voz é mais baixa que o normal e tem uma qualidade monotônica.
Quando perguntado como está se sentindo, Roberto demora a responder, não por falta de cooperação, mas como se precisasse de mais tempo para processar a pergunta e formular a resposta. “Estou… bem… quer dizer… tenho tido alguns… problemas”.
Questionado sobre que tipo de problemas, Roberto explica lentamente: “Esqueço das coisas… outro dia não lembrei onde tinha deixado o carro no estacionamento do supermercado. Fiquei uma hora procurando”. Ele sorri levemente, mas a expressão parece forçada, não alcançando seus olhos.
Roberto sabe seu nome completo, idade, onde nasceu. Sobre a data, ele responde: “Hoje é… dia 15… não, 16… é junho, certo? Quarta-feira?” (É 17 de junho, quinta-feira). Ele sabe que está em um consultório médico na cidade onde mora.
Quando se pede que faça o teste de memória das três palavras (carro, livro, janela), Roberto repete corretamente. Após cinco minutos, lembra “carro” e “janela”, mas não “livro”. Quando dado um tempo adicional, ele eventualmente se lembra: “Ah sim… livro! Estava na ponta da língua”.
Pedimos que Roberto faça o desenho de um relógio marcando 3h15. Ele pega o papel e a caneta com alguma dificuldade devido ao tremor. Desenha um círculo razoavelmente redondo, mas tem dificuldade em posicionar os números. O número 12 está no lugar certo, mas os outros números ficam amontoados na metade direita do relógio. Os ponteiros indicam aproximadamente 3h15, mas não são muito precisos.
Roberto é solicitado a subtrair 7 de 100 repetidamente. Ele começa: “100 menos 7… 93… 93 menos 7…” pausa longa… “86… depois… 79… não, espera… 80? Não…” Ele parece frustrado. “Desculpe, doutor, minha cabeça não está boa hoje”.
Durante a conversa, Roberto repete algumas informações que já havia dado. Quando questionado sobre sua profissão, ele diz “sou engenheiro” e, minutos depois, quando o tópico não está mais sendo discutido, ele comenta: “Trabalhei como engenheiro por 30 anos, sabe?”
A filha, convidada a entrar por alguns minutos, relata que o pai tem se esquecido de compromissos, repete as mesmas perguntas várias vezes, e recentemente se perdeu voltando para casa de um lugar que conhece bem. “Ele também mudou de personalidade”, ela diz. “Papá sempre foi calmo, mas agora fica irritado por pequenas coisas. E às vezes diz coisas inapropriadas, sem filtro”.
Roberto admite que tem percebido “algumas dificuldades”, mas minimiza: “É a idade, doutor. Todo mundo esquece as coisas quando fica velho, não é?” Quando sugerido que uma avaliação mais detalhada seria útil, ele aceita, mas não parece particularmente preocupado: “Se a senhora acha necessário… minha filha está preocupada, então tudo bem”.
Ao final da consulta, quando se levanta para sair, Roberto caminha com passos curtos e arrastados. Antes de sair, ele se vira e pergunta: “Doutor, qual é mesmo seu nome? Desculpe, já me esqueci”.
7 Ranier, 20 anos
Baseado no caso Ranier descrito por Klaus Conrad no seu livro Esquizofrenia Incipiente (Conrad, 1963).
Ranier N, nascido em 1921. Deu entrada no hospital psiquiátrico no dia 29 de janeiro de 1941, com 20 anos de idade. Apresentava um grave delírio de referência. Acreditava que todos sabiam seus pensamentos, se mostrava bastante desconfiado e as vezes ficava agitado. Seu estado melhorou lentamente ao longo de 8 semanas de internação. Depois de melhorar contou como seu quadro se desenvolveu.
Começou a trabalhar como militar no exército alemão em 1940. Desejava seguir carreira de oficial, mas tinha receio de não conseguir. Logo começou a perceber que “havia algo estranho”, mas não sabia o que. Aos poucos começou a notar “rumores” de que ele iria ser o chefe da companhia. Ouvia esses rumores sobre o próximo chefe e, embora seu nome não fosse dito, passou a saber que se referiam a ele. Passou a sentir uma certa inimizade entre os colegas, que atribuiu a uma inveja. Pouco a pouco passou a sentir que todos se voltavam contra ele.
Certo dia o capitão da companhia lhe disse “coloque-os em ordem, você é o responsável”. Ele percebeu que essa era uma alusão à sua ascensão profissional.
Passou a não mais conversar com ninguém, pois temia a inveja dos colegas. Passou a notar que os colegas o observavam de forma estranha. Certa noite ouviu uma conversa de que os colegas o levariam para o campo, o amarrariam numa árvore e o queimariam com um ferro em brasa. Por medo, decidiu passar a noite em claro para poder se defender caso isso viesse a acontecer. Nessa noite começou a ouvir os passos de pessoas se aproximando ao redor de sua barraca, mas sempre que se levantava tudo ficava em silêncio novamente. Às vezes acendia a luz de sua barraca, mas não via nada, concluía então que todos se escondiam. Passou a noite toda acordado e vigilante. De manhã sentia haver uma certa inimizade entre ele e os colegas. Quando seu melhor amigo perguntou “o que se passa”, notou que todos se viraram para ele, “para ver como iria reagir”.
Sentia que tudo era uma ameaça. Percebeu que todos estava contra ele. Quando foi tomar banho, o jarro de água tinha desaparecido, quando se dirigia a algum lugar, alguém obstruía seu caminho. Passou a notar que faziam gestos para ele, sentia que eram todos grosseiros com ele.
Percebeu que até seus melhores amigos passavam a se desviar dele aos poucos até o abandonarem totalmente e passou a se sentir completamente só.
Foi então levado até a enfermaria e, quando o tenente falava com ele, teve a sensação de que tramavam um plano para que ele deixasse de pensar em ser promovido. Queriam expô-lo ao ridículo em público. Foi então colocado em uma maca na enfermaria e teve de tomar um comprimido. Ele então pensou que essa medicação iria servir para provocar artificialmente um estado febril nele.
Médicos e enfermeiros vieram em seguida e o levaram para um carro. Ele então passou a acreditar que queriam dar a ele uma nova oportunidade. Percebeu que estava sendo colocado a prova para poder finalmente um oficial do exército. Quando lhe ofereceram um cigarro pensou que havia ali alguma substância para paralisar sua vontade ou para enganá-lo de alguma forma. Em certo momento o motor do carro começou a falhar e ele então percebeu que isso era um sinal de que havia uma trama contra ele. Em outro momento viu uma placa com a letra “N” e percebeu que esse era um sinal que significava “NÃO” e que queria dizer que ele não tinha mais esperanças. Ao passarem por uma cidade cunho nome significava “montanha acima” e uma lona verde e interpretou essas coisas como “sinais” de que havia novamente esperança.
Quando chegou no hospital, enquanto aguardava, pode ouvir a voz de seu comandante e de seu coronel e teve a certeza de que tramavam seu assassinato, que o degolariam como a um animal. Quando encontrou com o médico essa certeza se confirmou quando viu uma seringa no bolso do paletó do médico. Quando foi colocado na cama da enfermaria teve a sensação de que estavam lendo seus pensamentos, que todos sabiam o que ele pensava.
Num momento em que estava sozinho, cortou os pulsos para se matar, pois “preferia morrer a viver aquele lento martírio”. Percebeu que, apesar de estar sozinho, as pessoas saberiam o que tinha feito por causa da transmissão de pensamento que estava sofrendo.
Alguns dias depois, relatou que se sentia confuso, com as lembranças de tudo que viveu nos últimos dias um pouco “esfumaçadas”. Continuava sentindo que todos conseguiam ler seus pensamentos, que vigiavam seus pensamentos. Sentia que, sempre que pensava em fugir do hospital tinha a sensação de que era observado com mais intensidade e de que o cercavam para impedir sua fuga. Ranier então tentava ficar pensando apenas em coisas inofensivas para não chamar atenção da equipe.
Sentia-se muito incomodado durante a noite, pois sentia que observavam constantemente seus pensamentos. Sabia que os outros pacientes dormiam muito durante o dia para poderem observar melhor seus pensamentos durante a noite. Notava também que quando pensava algumas coisas em particular as pessoas tossiam de forma intencional e que quando pensava em se barbear via que algum outro pacientes passava a mão pela face e dizia pra ele que tinha feito a barba.
Certo dia, ainda internado, teve a pensamento de que isso tudo era uma prova para ver se ele tinha condições de ser um oficial. Entendeu então que que queriam educa-lo a “fazer dele um homem”.
Percebeu que sempre exigiam dele uma decisão. Certa vez viu um queijo sobre a mesa e notou que havia gotas de líquido sobre o queijo. Com isso teve a certeza de que era um sinal de que ele devia se arriscar. Decidiu então que precisava lutar para mostrar que era não também fisicamente capacitado para ser oficial. Passou então a iniciar brigas com frequência em sua ala. Passou a temer que o mudassem para a ala de pacientes mais tranquilos, pois assim não perderia a oportunidade de mostrar suas capacidades. Pensava sempre “tem que voltar a lutar, tudo está em jogo, exigem isso de você”. Durante esse período não se sentia humilhado ou deprimido, mas pelo contrário, sentia-se orgulhoso por sentir que era tratado como um inimigo de respeito. Passou a acreditar que sua nação somente poderia durar eternamente se todos homens passassem a ser educados dessa mesma forma que acontecia aqui com ele. E sentia que, se perseverasse, iria conseguir se tornar oficial que desejava.
Depois de alguns dias, entretanto, sentiu que suas forças o deixavam. Não era mais capaz de resistir. Não conversava mais com ninguém. Já não tinha mais esperanças. Estava esperando a morte. Sentia-se acabado física e mentalmente. Sentia haver falhado em definitivamente. Não tinha mais esperanças de ser um dia oficial.
Antes de sua alta hospitalar o paciente relatava se sentir deprimido, com um sentimento de inferioridade, que não tinha mais valor, que era “como as outras pessoas”.
Três semanas depois o paciente escreveu uma carta para o médico contando não ter mais o sentimento de que estava sendo observado, que estava feliz por se ver livre desse sentimento. E agradeceu ao médico pela ajuda durante a internação apesar de nunca ter aceitado tal ajuda
8 Orientações para o Exercício
Para o caso escolhido, elabore:
- Exame do Estado Mental completo, seguindo todos os 20 itens do roteiro
- Súmula do exame psíquico (um parágrafo resumindo os principais achados)
- Hipóteses diagnósticas (baseando-se apenas no EEM, liste 2-3 possibilidades diagnósticas que você consideraria)
Exemplo de estrutura para sua resposta:
CASO ESCOLHIDO: [Número e nome]
EXAME DO ESTADO MENTAL
1. Aspecto Geral e Apresentação
[Sua descrição]
2. Nível de Consciência
[Sua descrição]
[... continuar para todos os 20 itens]
SÚMULA DO EXAME PSÍQUICO
[Seu resumo técnico em um parágrafo]
HIPÓTESES DIAGNÓSTICAS PRINCIPAIS
1. [Hipótese 1]
2. [Hipótese 2]
3. [Hipótese 3]