A Entrevista Psiquiátrica e o Exame do Estado Mental
1 Introdução
A entrevista psiquiátrica constitui a base fundamental da prática clínica em saúde mental. Ela representa muito mais do que uma simples coleta de informações: é um encontro interpessoal complexo onde se estabelece uma relação terapêutica, se formula um diagnóstico pluridimensional e se inicia o processo de compreensão do sofrimento psíquico do paciente (Dalgalarrondo, 2019).
Como afirmou Harry Stack Sullivan, “o domínio da técnica de realizar entrevistas é o que qualifica especificamente o profissional habilidoso” (Dalgalarrondo, 2019, p. 69). A entrevista psiquiátrica exige não apenas conhecimento teórico, mas também sensibilidade interpessoal, capacidade de observação aguçada e habilidade para estabelecer rapport com diferentes tipos de pacientes.
2 A Entrevista Inicial
2.1 Importância e Objetivos
A entrevista inicial é considerada um momento crucial no diagnóstico e no tratamento em saúde mental (Dalgalarrondo, 2019). Esse primeiro contato, sendo bem-conduzido, deve produzir no paciente uma sensação de confiança e de esperança em relação ao alívio do sofrimento. Entrevistas iniciais mal conduzidas, nas quais o profissional é, involuntariamente ou não, negligente ou hostil com o paciente, geralmente são seguidas de abandono do tratamento.
2.2 A Primeira Impressão
Logo no início, o olhar e toda a comunicação não verbal já têm sua importância: é o centro da comunicação, que inclui toda a carga emocional do ver e ser visto, do gesto, da postura, das vestimentas, do modo de sorrir ou expressar sofrimento (Dalgalarrondo, 2019). Mayer-Gross, Slater e Roth assinalam que “a primeira impressão tem o seu valor próprio e dificilmente poderá ser recapturada em ocasiões posteriores” (Dalgalarrondo, 2019, p. 69).
Pesquisas empíricas demonstraram que, em profissionais com experiência clínica, os primeiros três minutos da entrevista são extremamente significativos, sendo muitas vezes úteis tanto para a identificação do perfil dominante de sintomas do paciente como para a formulação da hipótese diagnóstica final (Dalgalarrondo, 2019).
2.3 As Três Regras de Ouro da Entrevista
2.3.1 Primeira Regra: Pacientes Organizados
Pacientes organizados mentalmente, com inteligência normal, com escolaridade boa ou razoável, fora de um “estado psicótico”, devem ser entrevistados de forma mais aberta, permitindo que falem e se expressem de maneira mais fluente e espontânea. O entrevistador fala pouco, fazendo algumas pontuações para que o paciente “conte a sua história” (Dalgalarrondo, 2019).
2.3.2 Segunda Regra: Pacientes Desorganizados
Pacientes desorganizados, com nível intelectual baixo, em estado psicótico ou paranoide, “travados” por alto nível de ansiedade, devem ser entrevistados de forma mais estruturada. Nesse caso, o entrevistador fala mais, faz perguntas mais simples e dirigidas (perguntas fáceis de serem compreendidas e respondidas) (Dalgalarrondo, 2019).
2.3.3 Terceira Regra: Abordagem Gradual
Nos primeiros contatos com pacientes muito tímidos, ansiosos ou paranoides, deve-se fazer primeiro perguntas neutras (nome, onde mora, profissão, estado civil, nome de familiares, etc.), para apenas, gradativamente, começar a formular perguntas “mais quentes” (às vezes, constrangedoras para o paciente) (Dalgalarrondo, 2019). Vale a sabedoria popular que diz: “O mingau quente se come pela beirada”.
2.4 Estrutura da Avaliação Psiquiátrica
A avaliação psiquiátrica completa engloba cinco componentes principais (Dalgalarrondo, 2019):
2.4.1 1. Entrevista Inicial e Anamnese
Na anamnese, o entrevistador se interessa tanto pelos sintomas objetivos como pela vivência subjetiva do paciente em relação àqueles sintomas; pela cronologia dos fenômenos e pelos dados pessoais e familiares. Além disso, o entrevistador permanece atento às reações do paciente ao fazer os seus relatos, realizando assim parte do exame psíquico durante a coleta da história (Dalgalarrondo, 2019).
A anamnese deve incluir:
- Dados sociodemográficos completos
- Queixa principal ou problema central
- História da doença atual (HDA)
- Antecedentes mórbidos pessoais (somáticos e psíquicos)
- Hábitos e uso de substâncias químicas
- Antecedentes mórbidos familiares
- História de vida do paciente
- Avaliação das interações familiares e sociais
2.4.2 2. Exame Psíquico (Exame do Estado Mental)
O exame psíquico é o exame do estado mental atual, realizado com cuidado e minúcia pelo entrevistador desde o início da entrevista até a fase final (Dalgalarrondo, 2019). Este será detalhado extensivamente na próxima seção.
2.4.3 3. Exame Físico Geral e Neurológico
Deve ser mais ou menos detalhado a partir das hipóteses diagnósticas que se formam com os dados da anamnese e do exame do estado mental. Caso o profissional suspeite de doença física, deverá examinar o paciente somaticamente em detalhes; caso suspeite de distúrbio neurológico ou neuropsiquiátrico, o exame neurológico deverá ser completo e detalhado (Dalgalarrondo, 2019).
2.4.4 4. Exames Complementares Psicológicos
Incluem avaliações por meio de testes da personalidade e da cognição (psicodiagnóstico e testes neuropsicológicos) (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017).
2.4.5 5. Exames Complementares Laboratoriais
Incluem exames laboratoriais (exame bioquímico, citológico e imunológico do líquido cerebrospinal, hemograma, eletrólitos, metabólitos, hormônios, etc.), exames de neuroimagem (tomografia computadorizada do cérebro, ressonância magnética do cérebro, SPECT, etc.) e neurofisiológicos (EEG, potenciais evocados, etc.) (Dalgalarrondo, 2019).
2.5 Aspectos Práticos da Entrevista
2.5.1 Preparação e Apresentação
É conveniente que o profissional se apresente, dizendo seu nome, se necessário, sua profissão e especialidade e, se for o caso, a razão da entrevista. A confidencialidade, a privacidade e o sigilo devem ser explicitamente garantidos caso se note o paciente tímido ou desconfiado (Dalgalarrondo, 2019).
2.5.2 Ambiente da Entrevista
Deve-se providenciar um local com o mínimo de privacidade e conforto para a entrevista. No caso de pacientes muito irritados, potencialmente agressivos, deve-se evitar lugares trancados e de difícil acesso ou evasão (Dalgalarrondo, 2019).
2.5.3 Linguagem e Comunicação
É necessário utilizar linguagem e vocabulário compatíveis com o nível intelectual do paciente, adequados ao seu universo cultural e aos seus valores morais e religiosos (Dalgalarrondo, 2019). É conveniente utilizar perguntas mais abertas para os pacientes com bom nível intelectual. Para pacientes com déficit intelectual, quadros demenciais ou muito desestruturados, empregar perguntas mais fechadas, mais estruturadas, que permitam respostas do tipo “sim” ou “não”.
3 O Exame do Estado Mental
3.1 Conceito e Importância
O Exame do Estado Mental (EEM) é uma avaliação sistemática e abrangente do estado psíquico atual do paciente. Ele é realizado continuamente durante toda a entrevista, desde o momento em que o paciente entra na sala até o fim do encontro (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017). O EEM fornece uma “fotografia” do funcionamento mental do paciente naquele momento específico, diferenciando-se da anamnese, que é longitudinal e histórica.
O EEM deve ser descrito de forma objetiva, detalhada e organizada, utilizando termos técnicos apropriados, mas também incluindo, quando relevante, as próprias palavras do paciente (Dalgalarrondo, 2019). A observação cuidadosa e a descrição precisa dos achados do exame psíquico são fundamentais para o diagnóstico correto e para o planejamento terapêutico adequado.
3.2 Componentes do Exame do Estado Mental
3.2.1 1. Aspecto Geral e Apresentação
O aspecto global do paciente é expresso pelo corpo e pela postura corporal, pela indumentária (roupas, sapatos, etc.), pelos acessórios (colares, brincos, piercing, etc.), por detalhes como maquiagem, perfumes, odores, marcas corporais (tatuagens, queimaduras, etc.), porte e atitudes psicológicas específicas e globais (Dalgalarrondo, 2019).
A aparência do paciente, suas vestes, seu olhar, sua postura revelam muito de seu estado mental interior e são recursos fundamentais para o diagnóstico (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017). A descrição deve incluir:
- Cuidados pessoais e higiene: estado de asseio, limpeza corporal, odores
- Vestimenta: adequação ao contexto, cores, estado de conservação, excentricidades
- Aparência física geral: idade aparente versus real, biotipo, estado nutricional
- Contato visual: mantém, evita, fixo, errante
- Expressão facial: neutra, tensa, chorosa, alegre, perplexa
3.2.2 2. Nível de Consciência
Refere-se ao grau de clareza e lucidez com que o paciente vivencia o momento presente. A consciência pode estar:
- Lúcida: paciente alerta, responsivo, orientado
- Obnubilada: leve redução da clareza mental
- Torporosa: sonolência acentuada, mas despertável
- Estuporosa: profunda redução do nível de consciência
- Comatosa: ausência de resposta a estímulos
Devem-se observar também flutuações do nível de consciência e estados crepusculares (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017).
3.2.3 3. Orientação
Avalia-se a capacidade do paciente de situar-se no tempo, no espaço e em relação a si mesmo (Dalgalarrondo, 2019):
- Orientação temporal (alopsíquica): dia, mês, ano, hora aproximada, período do dia
- Orientação espacial (alopsíquica): onde se encontra, cidade, estado, reconhece o local
- Orientação autopsíquica: nome, idade, data de nascimento, identidade pessoal
É importante diferenciar a desorientação primária (por comprometimento cognitivo) da secundária (por psicose, confusão mental ou simulação).
3.2.4 4. Atenção
A atenção é a capacidade de focar e manter o foco em estímulos específicos. Deve-se avaliar (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017):
- Vigilância: capacidade de manter a atenção ao longo do tempo
- Tenacidade: resistência à distração
- Concentração: capacidade de focar em tarefas específicas
Alterações possíveis:
- Hipoprosexia (diminuição global da atenção)
- Aprosexia (abolição da atenção)
- Hiperprosexia (aumento patológico da atenção)
- Distraibilidade (atenção flutuante, facilmente desviável)
- Perseveração atencional
3.2.5 5. Memória
Avalia-se a capacidade de fixar, reter e evocar informações (Dalgalarrondo, 2019):
3.2.5.1 Memória de Fixação (Imediata)
Capacidade de registrar novas informações. Testada pedindo ao paciente para repetir imediatamente dígitos, palavras ou frases.
3.2.5.2 Memória Recente
Eventos dos últimos dias ou semanas. Pode-se perguntar sobre refeições recentes, notícias atuais, atividades dos últimos dias.
3.2.5.3 Memória Remota
Eventos da infância, juventude, fatos históricos conhecidos, dados biográficos antigos.
Alterações possíveis:
- Amnésia (lacunar, anterógrada, retrógrada, global)
- Hipermnésia
- Paramnésia
- Confabulação
- Falsos reconhecimentos (déjà vu, jamais vu)
3.2.6 6. Sensopercepção
Refere-se às experiências sensoriais e perceptivas do paciente. Deve-se investigar (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017):
3.2.6.1 Alterações Quantitativas
- Hiperestesias
- Hipoestesias
- Anestesias
3.2.6.2 Alterações Qualitativas
- Ilusões: distorções perceptivas de estímulos reais
- Alucinações: percepções sem objeto, podem ser:
- Auditivas (vozes, ruídos, músicas)
- Visuais (figuras, cenas, vultos)
- Táteis (sensações na pele)
- Olfativas
- Gustativas
- Cenestésicas (sensações corporais internas)
É fundamental caracterizar: modalidade sensorial, conteúdo, clareza, localização no espaço, grau de convicção, repercussão emocional e comportamental.
3.2.7 7. Pensamento
O pensamento deve ser avaliado em três dimensões (Dalgalarrondo, 2019):
3.2.7.1 A. Curso do Pensamento (Velocidade e Fluxo)
- Normal
- Acelerado: taquipsiquismo, fuga de ideias
- Lentificado: bradipsiquismo
- Bloqueio: interrupção súbita do fluxo
- Roubo do pensamento
3.2.7.2 B. Forma do Pensamento (Estrutura e Organização)
- Normal: lógico, coerente, com nexo causal
- Desagregado: perda das associações lógicas
- Incoerente: ausência de nexo entre as ideias
- Circunstancial: perda da finalidade por excesso de detalhes
- Tangencial: desvio do objetivo sem retorno
- Prolixo: detalhista, minucioso em excesso
- Perseverativo: repetição de temas ou palavras
3.2.7.3 C. Conteúdo do Pensamento
Refere-se aos temas, preocupações e ideias presentes:
- Ideias prevalentes: preocupações dominantes, mas reconhecidas como exageradas
- Ideias sobrevaloradas: convicções intensas e persistentes, com carga afetiva
- Ideias obsessivas: pensamentos intrusivos, repetitivos, egodistônicos
- Ideias delirantes: convicções falsas, irredutíveis à argumentação lógica, podem ser:
- De perseguição
- De referência
- De influência
- De grandeza
- Hipocondríacas/somáticas
- De ciúme
- De ruína
- Místico-religiosas
- Niilistas
3.2.8 8. Linguagem
Avalia-se a produção e compreensão da linguagem (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017):
3.2.8.1 Aspectos Expressivos
- Fluência: normal, reduzida (hipofonia, mutismo), aumentada (logorreia)
- Ritmo: normal, acelerado (taquilalia), lentificado (bradilalia)
- Volume: normal, aumentado, diminuído
- Tom: normal, monotônico, infantil, irritado, choroso
- Articulação: clara, disártrica, arrastada
- Prosódia: entonação, melodia da fala
3.2.8.2 Alterações Patológicas
- Mutismo: ausência completa de produção verbal
- Ecolalia: repetição automática das palavras do interlocutor
- Palilalia: repetição das próprias palavras
- Neologismos: criação de palavras novas
- Parafasias: substituição de palavras (fonêmicas ou semânticas)
- Salada de palavras: sequência de palavras sem nexo
- Mussitação: murmuração ininteligível
- Estereotipias verbais: repetição de palavras ou frases
- Verbigeração: repetição sem sentido de sílabas ou palavras
3.2.8.3 Compreensão
Deve-se avaliar se o paciente compreende instruções simples, complexas e abstrações.
3.2.9 9. Inteligência
Avalia-se o nível de funcionamento intelectual global através da observação clínica e, quando necessário, por testes específicos (Dalgalarrondo, 2019):
- Capacidade de abstração: interpretação de provérbios, semelhanças
- Conhecimentos gerais: compatíveis com nível educacional
- Cálculo: operações matemáticas básicas
- Raciocínio: capacidade de resolver problemas
- Vocabulário: amplitude e adequação
Classificação funcional:
- Inteligência limítrofe
- Deficiência intelectual leve
- Deficiência intelectual moderada
- Deficiência intelectual grave
- Deficiência intelectual profunda
3.2.10 10. Juízo de Realidade
Refere-se à capacidade de avaliar corretamente a realidade externa e interna, discriminar fantasia de realidade, e fazer julgamentos adequados sobre situações (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017):
- Preservado: avaliação adequada da realidade
- Comprometido: distorções na percepção e avaliação da realidade (presente em quadros psicóticos)
3.2.11 11. Vida Afetiva
3.2.11.1 A. Humor (Estado de Humor Basal)
Estado emocional de fundo, mais duradouro e menos reativo a estímulos externos (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017):
- Eutímico: humor normal, adequado
- Deprimido/Hipotímico: humor triste, melancólico
- Elevado/Hipertímico: humor alegre, eufórico, exaltado
- Expansivo: humor contagiante, exuberante
- Irritável: humor irritadiço, explosivo
- Disfórico: humor desagradável, mal-estar
- Lábil: humor com oscilações rápidas e frequentes
- Incontinente: perda do controle emocional
3.2.11.2 B. Afeto (Expressão Emocional Observavel)
Manifestação externa, observável, das emoções (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017):
- Adequado: condizente com o conteúdo verbal e contexto
- Inadequado/Discordante: incongruente com conteúdo ou situação
- Embotado: marcada redução da expressividade
- Aplanado/Achatado: ausência quase total de expressão emocional
- Restrito: amplitude reduzida de expressão
- Lábil: mudanças rápidas e frequentes
- Superficial: emoções parecendo rasas, sem profundidade
3.2.11.3 C. Emoções e Sentimentos Predominantes
- Ansiedade (intensidade, presença de sintomas físicos)
- Medo (objetos fóbicos, pânico)
- Tristeza
- Alegria
- Raiva/hostilidade
- Culpa
- Vergonha
- Anedonia (perda da capacidade de sentir prazer)
- Apatia (falta de motivação e interesse)
- Ambivalência afetiva
3.2.12 12. Volição (Vontade e Motivação)
Refere-se aos processos de tomada de decisão, iniciativa, motivação e capacidade de executar ações intencionais (Dalgalarrondo, 2019):
- Normal: vontade preservada, capacidade de decisão e execução
- Hipobulia: diminuição da vontade e iniciativa
- Abulia: ausência de vontade, incapacidade de decidir e agir
- Hiperbulia: aumento patológico da vontade e iniciativa
- Compulsões: atos repetitivos executados em resposta a impulsos irresistíveis
- Impulsividade: ações sem planejamento ou consideração de consequências
- Ambivalência volitiva: dificuldade em decidir, vontades contraditórias simultâneas
3.2.13 13. Psicomotricidade
Avalia os comportamentos motores e sua relação com o psiquismo (Dalgalarrondo, 2019):
3.2.13.1 Atividade Motora Global
- Normal
- Agitação psicomotora: aumento da atividade motora
- Inquietação/Acatisia: impossibilidade de ficar parado
- Lentificação psicomotora: diminuição global da atividade
- Estupor: imobilidade, mutismo, ausência de resposta
- Catalepsia: manutenção de postura imposta
- Flexibilidade cérea: resistência plástica à movimentação passiva
- Negativismo: oposição ativa ou passiva a solicitações
- Obediência automática: execução automática de ordens
- Ecopraxia: imitação automática de gestos do examinador
3.2.13.2 Movimentos Anormais
- Estereotipias: movimentos repetitivos, sem finalidade aparente
- Maneirismos: movimentos bizarros, peculiares
- Tiques: movimentos involuntários, súbitos, repetitivos
- Tremores
- Discinesias: movimentos involuntários anormais
3.2.14 14. Consciência e Valoração do Eu
Refere-se à vivência da identidade pessoal e dos limites do self (Dalgalarrondo, 2019):
3.2.14.1 Aspectos a Avaliar
- Unidade do Eu: sentimento de ser uma única pessoa
- Identidade do Eu: reconhecimento de si mesmo
- Atividade do Eu: sentimento de ser agente de ações e pensamentos
- Limites do Eu: distinção entre self e não-self
- Continuidade do Eu: sentimento de continuidade temporal
3.2.14.2 Alterações
- Despersonalização: sensação de estranheza em relação a si mesmo
- Desrealização: sensação de irrealidade do mundo externo
- Vivência de influência: sentimento de que pensamentos ou ações são controlados externamente
- Difusão de identidade: perda dos limites do Eu
- Dupla personalidade: convicção de possuir duas identidades
3.2.15 15. Vivência do Tempo e do Espaço
3.2.15.1 Vivência Temporal
- Normal
- Aceleração do tempo: tempo passa muito rapidamente
- Retardo do tempo: tempo parece parado ou extremamente lento
- Atemporalidade: perda da noção de passagem do tempo
- Déjà vu: sensação de já ter vivido o momento presente
- Jamais vu: sensação de nunca ter visto algo familiar
3.2.15.2 Vivência Espacial
- Normal
- Micropsia: objetos parecem menores
- Macropsia: objetos parecem maiores
- Metamorfopsia: distorção da forma dos objetos
- Dismegalopsia: alteração das distâncias
3.2.16 16. Personalidade
Trata-se da avaliação dos traços de personalidade predominantes, padrões de comportamento, estilo de relacionamento interpessoal e mecanismos de defesa (Dalgalarrondo, 2019):
- Traços obsessivos (perfeccionismo, rigidez, necessidade de controle)
- Traços histéricos (dramaticidade, busca de atenção, emocionalidade excessiva)
- Traços paranoides (desconfiança, sensibilidade a críticas, hostilidade)
- Traços esquizoides (distanciamento afetivo, preferência por atividades solitárias)
- Traços dependentes (necessidade excessiva de apoio, dificuldade em tomar decisões)
- Traços narcisistas (grandiosidade, necessidade de admiração)
- Traços evitativas (esquiva de situações sociais, medo de rejeição)
- Traços antissociais (desrespeito por normas, impulsividade, ausência de remorso)
3.2.17 17. Contratransferência
Refere-se aos sentimentos, reações emocionais e pensamentos que o paciente desperta no entrevistador (Dalgalarrondo, 2019):
- Sentimentos de empatia, simpatia
- Sentimentos de antipatia, rejeição
- Tédio, desinteresse
- Ansiedade, medo
- Irritação, frustração
- Confusão mental
- Proteção, desejo de ajudar
- Atração, sedução
- Competição, rivalidade
A contratransferência, quando reconhecida e elaborada, fornece informações valiosas sobre como o paciente afeta outras pessoas e sobre aspectos de sua dinâmica interpessoal.
3.2.18 18. Crítica e Insight
Refere-se à capacidade do paciente de reconhecer que está doente e de compreender a natureza de seus sintomas (Dalgalarrondo, 2019):
3.2.18.1 Níveis de Insight
- Insight completo: reconhece estar doente, compreende os sintomas como patológicos, aceita tratamento
- Insight parcial: reconhece alguns sintomas, mas não todos; ou reconhece sintomas mas não aceita tratamento
- Ausência de insight: não reconhece estar doente, nega sintomas, não vê necessidade de tratamento
David (1990) propôs três componentes do insight (Dalgalarrondo, 2019):
- Consciência da doença
- Modo de nomear ou renomear os sintomas
- Adesão a tratamentos propostos
3.2.19 19. Desejo de Ajuda
Avalia-se a motivação e disposição do paciente para receber ajuda:
- Forte: busca ativa de tratamento, boa motivação
- Moderado: aceita ajuda, mas com ambivalência
- Fraco: pouca motivação para tratamento
- Ausente: não vê necessidade de ajuda
3.2.20 20. Voluntariedade do Tratamento
Informa-se se o tratamento é:
- Voluntário: paciente procurou espontaneamente
- Involuntário: paciente foi trazido por terceiros, sem concordância
- Compulsório: por determinação judicial
3.3 Súmula do Exame Psíquico
Ao final do Exame do Estado Mental, deve-se fazer uma súmula, isto é, um resumo conciso utilizando termos técnicos apropriados, mas evitando o excesso de jargão médico, destacando os achados mais relevantes e significativos para o diagnóstico (Dalgalarrondo, 2019).
Exemplo de súmula:
“Paciente com apresentação descuidada, higiene precária, cooperativo, lentificado psicomotoramente. Consciente, orientado globalmente. Atenção globalmente diminuida. Memória preservada. Sem alterações sensoperceptivas. Pensamento com curso lentificado, forma preservada, conteúdo com ideias de ruína e culpa. Fala com volume diminuído, voz baixa, pouco audível e lentificada. Inteligência estimada na média. Juízo de realidade preservado. Humor deprimido, afeto embotado, anedonia presente. Hipobulia acentuada. Sem alterações da consciência do Eu. Personalidade com traços obsessivos. Insight parcial. Desejo de ajuda moderado. Tratamento voluntário.”
4 Aspectos Práticos da Documentação
4.1 Registro por Escrito
Ao final da entrevista, forma-se o esboço do caso na mente do entrevistador. O relato do caso por escrito deve conter, de preferência, as próprias palavras que o paciente e os informantes usaram ao descrever os sintomas mais relevantes (Dalgalarrondo, 2019).
4.1.1 Princípios para Boa Documentação
- Linguagem simples e precisa: O relato deve ser compreensível, evitando jargão desnecessário
- Detalhado mas não prolixo: Pormenorizado no essencial, conciso no secundário
- Uso sóbrio de terminologia técnica: Proporcional ao grau de conhecimento obtido do caso
- Caligrafia legível e estilo claro: Frases e parágrafos curtos
- Evitar interpretações precoces: Não forçar significados psicológicos, psicanalíticos ou biológicos prematuramente
4.1.2 Valor Legal
O relato escrito tem, além de valor médico, importante valor legal. É um documento que, sendo bem-redigido, poderá ser decisivo em questões legais futuras (Dalgalarrondo, 2019).
4.2 Perspectiva Longitudinal versus Transversal
A avaliação psiquiátrica possui uma dimensão longitudinal (histórica, temporal) e outra transversal (momentânea, atual) da vida do paciente (Dalgalarrondo, 2019). Sem a dimensão longitudinal, a transversal fica obscura e incompleta. Assim, as relações temporais devem ser claramente descritas.
5 Considerações Especiais
5.1 Pacientes com Alterações da Crítica
Muitas vezes, o paciente psiquiátrico não tem qualquer queixa a fazer; ou simplesmente não tem crítica ou insight de sua situação, de seu sofrimento (Dalgalarrondo, 2019). Pacientes graves, como psicóticos, bipolares em quadro maníaco, alguns dependentes químicos, com deficiência intelectual, síndromes autísticas ou demências, apresentam graves prejuízos quanto ao insight.
Nesses casos, informações de familiares e acompanhantes são fundamentais.
5.2 A Importância da Empatia e da Relação Terapêutica
A qualidade da relação estabelecida entre profissional e paciente é determinante para o sucesso do processo diagnóstico e terapêutico. Uma postura empática, respeitosa, interessada e não julgadora facilita a abertura do paciente e a coleta de informações relevantes.
5.3 Considerações Culturais
É fundamental considerar o contexto cultural do paciente. Algumas manifestações comportamentais ou vivências que poderiam ser consideradas patológicas em determinada cultura são normais e aceitas em outras. O entrevistador deve ter sensibilidade cultural para diferenciar variações normais de manifestações patológicas.
6 Conclusão
A entrevista psiquiátrica e o exame do estado mental constituem as ferramentas fundamentais do psiquiatra. O domínio dessas técnicas requer não apenas conhecimento teórico sobre psicopatologia, mas também desenvolvimento de habilidades interpessoais, capacidade de observação aguçada, sensibilidade para nuances da comunicação verbal e não verbal, e prática constante.
A avaliação cuidadosa e sistemática do paciente, documentada de forma clara e precisa, é a base para diagnósticos corretos, planejamento terapêutico adequado e acompanhamento efetivo da evolução do quadro clínico.
Como futuro psiquiatra, o estudante deve dedicar-se ao aprendizado e ao aprimoramento contínuo dessas competências essenciais, sempre mantendo uma postura ética, respeitosa e humanizada em relação aos pacientes.