Transtorno Obsessivo-Compulsivo de Origem Neurológica ou Neuroquímica: Três Casos Clínicos
A literatura contemporânea em neuropsiquiatria demonstra, com crescente clareza, que sintomas obsessivo-compulsivos podem emergir não apenas de fatores psicológicos ou predisposições hereditárias, mas também de lesões estruturais e de perturbações bioquímicas agudas. Os três casos analisados aqui — envolvendo respectivamente um tumor neuronal-glial no lobo temporal, uma lesão cerebelar extensa e o uso de um estimulante dopaminérgico — ilustram de maneira exemplar como diferentes pontos da rede cortico-estriato-tálamo-cortical podem gerar sintomas típicos de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), muitas vezes com consciência preservada e sofrimento intenso, mas com perda significativa da capacidade de controle voluntário.
O primeiro caso, descrito por Ghosh e colaboradores (2023), envolve uma mulher de 37 anos que apresentou, por dois meses, pensamentos intrusivos blasfemos, imagens mentais perturbadoras de animais selvagens e cobras, dúvidas patológicas e compulsões de verificação e neutralização. A paciente relatava intenso sofrimento e reconhecia o caráter egodistônico dos sintomas. Subitamente, desenvolveu quadro neurológico agudo com disartria, cefaleia, dificuldade para caminhar, tremores dos membros, confusão e alucinações visuais. A ressonância magnética revelou uma lesão intra-axial de aproximadamente 2,8 × 3,1 × 4,2 cm no hipocampo esquerdo, com padrão multicístico característico de tumour disembrioplásico neuroepitelial (DNET) (1). A paciente foi submetida à lobectomia temporal anterior esquerda com hipocampectomia e remoção completa da massa. Um mês após a cirurgia, houve melhora substancial dos sintomas obsessivo-compulsivos — a pontuação na Escala Yale-Brown para TOC (Y-BOCS) caiu de 22 para 10 — e seis meses depois já restavam apenas dúvidas leves sobre saúde (1). O relato sublinha que o lobo temporal — e suas conexões com córtex orbitofrontal, medial pré-frontal e estriado ventral — integra a arquitetura neural da compulsividade.
O segundo caso, reportado por Sathe et al. (2016), demonstra que lesões no cerebelo também podem precipitar sintomas obsessivo-compulsivos. Um adolescente de 14 anos, submetido à ressecção de uma massa vermiana (hemangioblastoma), desenvolveu comportamentos de lavagem excessiva das mãos e do rosto, banhos prolongados e ritualização motora — ele mesmo reconhecia que eram “incomuns” e sentia angústia ao tentar resistir. O caso sugere que a disfunção de circuitos fronto-cerebelares pode também levar a TOC emergente, ainda que a neuroanatomia tradicional o associe mais com disfunção de controle motor do que de compulsividade.
O terceiro caso, descrito por Jhanda, Singla e Grover (2016), mostra como alterações farmacológicas podem gerar sintomas obsessivo-compulsivos em pessoa previamente saudável. Um adolescente em tratamento com metilfenidato por TDAH desenvolveu em dez dias obsessões de simetria, dúvida intrusiva e compulsões de verificação — não havia história prévia de TOC, e os sintomas recuaram completamente após a suspensão do fármaco (2). Esse quadro demonstra como a estimulação dopaminérgica aguda pode reorganizar circuitos de controle de erro, monitoramento cognitivo e recompensa, produzindo padrões que clinicamente replicam TOC.
Tomados em conjunto, esses relatos clínicos convergem para a mesma conclusão: o TOC não é um fenômeno exclusivamente psicológico ou simbólico, mas emerge da interação complexa entre circuitos neurais especializados, neurotransmissores e a integridade anatômica de regiões que modulam monitoramento de erro, ritualização e integração sensório-emocional. Tumores temporais, lesões cerebelares e alterações agudas na neurotransmissão dopaminérgica podem produzir sintomas que o próprio paciente reconhece como irracionais e egodistônicos, mas que se impõem com força irresistível. Esses casos demonstram, portanto, que a vontade e o controle sobre impulsos e rituais dependem de redes cerebrais específicas, cuja disrupção — anatômica ou bioquímica — é capaz de produzir quadros clínicos que, na superfície, parecem “psiquiátricos”, mas que têm origem estrutural e fisiológica claramente identificável.