Hipersexualidade Induzida por Agonistas Dopaminérgicos no Parkinson
Entre as evidências mais contundentes de que alterações químicas no cérebro podem transformar a vontade humana, poucas se comparam àquelas observadas em pacientes com Doença de Parkinson tratados com agonistas dopaminérgicos. Esses medicamentos, destinados a aliviar sintomas motores, podem desencadear impulsos súbitos, desejos inéditos e comportamentos profundamente incompatíveis com a história pessoal dos pacientes. Os relatos clínicos disponíveis mostram que tais mudanças não são simbólicas nem metafóricas: são transformações reais, mensuráveis e reprodutíveis, capazes de reconfigurar a arquitetura motivacional de indivíduos previamente estáveis do ponto de vista comportamental.
Um dos casos mais claros é o descrito por Munhoz e colaboradores em 2009. O paciente, um homem de 67 anos, vivia havia sete anos com Parkinson e era tratado com levodopa e pramipexol. A história conjugal, relatada pela esposa, descrevia um homem marcadamente tímido e conservador, que mantinha relações sexuais semanais e jamais havia solicitado comportamentos fora de um padrão discreto e previsível. Entretanto, após o aumento da dose de pramipexol para 1,5 mg três vezes ao dia, instalou-se uma transformação abrupta: o paciente passou a exigir relações diárias, a utilizar obscenidades durante o ato e a solicitar insistentemente práticas — sobretudo sexo anal — que nunca haviam sido mencionadas ao longo de quarenta anos de casamento. A esposa procurou atendimento médico alarmada ao reconhecer que aquele comportamento não correspondia, em nenhuma medida, ao perfil do marido (1). A retirada do pramipexol levou à remissão completa do quadro em cerca de um mês, com retorno ao padrão anterior; e o paciente, retrospectivamente, reconhecia que suas condutas haviam sido inadequadas e estranhas ao seu “modo de ser”, embora na ocasião lhes parecessem impulsos irresistíveis.
O padrão temporal é tão nítido que reforça a interpretação causal: início dos impulsos após o aumento da dose, desaparecimento após retirada da droga, reaparecimento em casos de reexposição descritos em outras séries. Trata-se do clássico desenho clínico de desafio-retirada que sustenta relações de causalidade em farmacologia.
O fenômeno também aparece em outros contextos clínicos. O caso relatado por Sansone e Ferlan descreve um homem de 67 anos tratado com pramipexol para síndrome das pernas inquietas que passou a se masturbar compulsivamente, chegando a 6–8 episódios diários, inclusive interrompendo refeições, visitas e sono da esposa para satisfazer a urgência masturbatória. Como no caso anterior, o paciente reconhecia o comportamento, mas não conseguia explicá-lo. Segundo o próprio relato, os impulsos surgiram pouco tempo após o início do pramipexol e diminuíram drasticamente após a suspensão do medicamento (2).
Embora esses relatos individuais sejam impressionantes, a evidência mais robusta provém de estudos epidemiológicos de larga escala. Em um levantamento com 3.090 pacientes com Parkinson, Weintraub e colaboradores identificaram que 13,6% apresentavam algum transtorno de controle de impulsos ativo, incluindo jogo patológico, compulsões alimentares, compras compulsivas e compulsão sexual. Crucialmente, o uso de agonistas dopaminérgicos foi associado a um aumento expressivo da probabilidade de desenvolver esses comportamentos (odds ratio de 2,72), configurando um efeito consistente de classe. A compulsão sexual, por sua vez, ocorreu em 3,5% dos pacientes, com predominância em homens, e frequentemente em coocorrência com outros impulsos anômalos (3).
Tomados em conjunto, esses dados revelam um quadro muito nítido: a vontade, longe de ser uma entidade abstrata ou metafísica, depende de circuitos neuroquímicos específicos. A estimulação excessiva de receptores dopaminérgicos, particularmente aqueles envolvidos na motivação e no sistema de recompensa, pode introduzir desejos inéditos, intensificar impulsos preexistentes, abolir freios morais ou reorganizar prioridades internas de forma abrupta. As práticas sexuais procuradas por um indivíduo, a urgência de satisfazê-las e a incapacidade de resistir a certos comportamentos podem emergir, intensificar-se ou desaparecer em função direta de uma dose de agonista dopaminérgico.
Esses casos demonstram, de maneira cristalina, que intervenções farmacológicas podem não apenas modular, mas determinar comportamentos altamente complexos e carregados de significado emocional, moral e social. A vontade, nesses pacientes, não é destruída — mas é profundamente redirecionada. E, ao contrário do que ocorreria em transformações psicológicas graduais, aqui tudo depende de miligramas, receptores e vias dopaminérgicas específicas. Trata-se de um dos exemplos clínicos mais fortes de que a biologia pode criar, silenciar ou remodelar os desejos humanos.