Tumor Orbitofrontal Direito e Comportamento: O Caso Burns & Swerdlow (2003)

Autor
Afiliação

Henrique Alvarenga da Silva

Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)

Um caso clínico extraordinário descrito por Burns e Swerdlow em 2003 tornou-se uma das demonstrações mais claras de como alterações estruturais no cérebro podem gerar comportamentos que a própria pessoa repudia e reconhece como absolutamente incongruentes com sua história, valores e identidade moral. O paciente, um homem de 40 anos sem antecedentes psiquiátricos ou criminais, começou a apresentar impulsos pedofílicos súbitos, intrusivos e crescentemente incontroláveis, além de interesse compulsivo por pornografia infantil, comportamento que reconhecia como moralmente abominável e que tentava de forma consciente e explícita evitar (1). Em paralelo, desenvolveu sinais neurológicos como apraxia construtiva, além de mudanças marcadas na regulação de impulsos e no julgamento social.

A situação tornou-se tão grave que o paciente foi afastado da convivência com a família e encaminhado compulsoriamente à Justiça após assediar menores. No momento da internação, ainda mantinha plena consciência de que seus comportamentos eram errados, mas descrevia uma sensação de perda da capacidade de controle, como se uma força interna estranha estivesse tomando decisões em seu lugar. Essa discrepância profunda entre o juízo moral intacto e o impulso avassalador chamou imediatamente a atenção da equipe médica.

Burns JM, Swerdlow RH. Right Orbitofrontal Tumor With Pedophilia Symptom and Constructional Apraxia Sign. Arch Neurol. 2003;60(3):437–440. doi:10.1001/archneur.60.3.437

A investigação neurológica revelou a presença de um tumor no córtex orbitofrontal direito, região crítica para o controle de impulsos, avaliação social, atribuição de valor moral às ações e integração entre emoção e decisão. A ressonância magnética demonstrou uma lesão expansiva que comprometia diretamente circuitos orbitofrontais e suas conexões com estruturas límbicas relacionadas à emoção e ao desejo.

A remoção cirúrgica do tumor resultou em desaparecimento completo dos impulsos pedofílicos, com retorno pleno da capacidade de autocontrole e julgamento, reforçando de modo dramático a relação causal entre a lesão e os comportamentos emergentes (1).

Meses depois, quando o tumor recidivou, os impulsos retornaram com as mesmas características: intrusivos, moralmente rejeitados pelo paciente, porém intensos a ponto de gerar risco para terceiros. Após nova intervenção neurocirúrgica e tratamento complementar, os sintomas desapareceram novamente, reforçando a relação direta entre o crescimento tumoral e os comportamentos. Essa oscilação temporal — presença dos impulsos com o tumor ativo, remissão completa após a cirurgia, e recorrência quando houve recrescimento tumoral — fornece uma evidência rara e contundente da dependência da vontade e do controle moral em relação a circuitos neurais orbitofrontais.

O caso demonstra de forma inequívoca que a vontade não é uma entidade abstrata, imaterial ou metafísica, mas um processo dependente da integridade de redes corticolímbicas responsáveis por integrar emoções, impulsos e julgamento social. Quando essas redes são danificadas, podem emergir tendências impulsivas, transgressoras ou perigosas que a própria pessoa reconhece como estranhas ao seu caráter e experiência de vida. É precisamente no córtex orbitofrontal — uma região envolvida na atribuição de valor social às ações, na antecipação de consequências e na supressão de comportamentos inadequados — que se concentram muitos dos mecanismos que sustentam o que chamamos de “controle moral”. A integridade desse circuito determina a capacidade de resistir a impulsos contrários à consciência ética e, portanto, a própria experiência subjetiva de agência.

O caso descrito por Burns e Swerdlow tornou-se um marco na neuropsiquiatria moderna justamente porque rompe a falsa dicotomia entre cérebro e moralidade: mostra que o comportamento humano, inclusive nos seus aspectos mais sensíveis — desejo, repulsa, regra social, vergonha e controle — emerge de estruturas cerebrais específicas. Quando essas estruturas são danificadas por tumores, traumatismos ou degenerações, comportamentos incompatíveis com a identidade moral da pessoa podem surgir, demonstrando de forma cristalina que a vontade e o autocontrole dependem profundamente da integridade do córtex pré-frontal e de suas redes associadas.

Referências

1.
Burns JM, Swerdlow RH. Right orbitofrontal tumor with pedophilia symptom and constructional apraxia sign. Archives of Neurology [Internet]. 2003;60(3):437–40. Disponível em: https://doi.org/10.1001/archneur.60.3.437