O Caso Rosemary Kennedy e o Papel do Córtex Pré-Frontal na Vontade
A história de Rose Marie “Rosemary” Kennedy (1918–2005), irmã do presidente John F. Kennedy, tornou-se um marco trágico na história da psiquiatria e da psicocirurgia, não apenas por seu impacto humano e político, mas também porque ilustra, de forma dramática, como a vontade, a iniciativa e o comportamento dirigido a objetivos dependem de circuitos específicos do córtex pré-frontal. Rosemary nasceu em Brookline, Massachusetts, em 1918, e há relatos biográficos de que seu parto foi problemático, marcado por atraso na assistência médica durante a pandemia de gripe de 1918, o que pode ter prolongado um período de hipóxia neonatal (1,2). Na infância, apresentava atrasos motores e cognitivos, mas conseguia escrever cartas, participar de atividades sociais e manter interações afetivas, sendo frequentemente descrita como uma jovem sociável e carinhosa por seus professores e familiares (2,3).
Ao final da adolescência e início da vida adulta, Rosemary passou a apresentar piora comportamental progressiva, incluindo oscilações de humor, episódios de agressividade, fugas durante a noite, convulsões e comportamentos que preocupavam a família devido ao estigma social e às ambições políticas dos Kennedy (1–3). À época, a psiquiatria dispunha de poucos tratamentos eficazes para quadros psiquiátricos graves, e a lobotomia pré-frontal, promovida por Walter Freeman e James Watts, ganhava popularidade como solução para agitação, impulsividade e agressividade, apesar de já ser alvo de críticas quanto à segurança e eficácia (4,5).
Em novembro de 1941, aos 23 anos, Rosemary foi submetida ao procedimento no Hospital da George Washington University. Freeman e Watts realizaram a técnica clássica de lobotomia pré-frontal, cortando fibras que conectavam o lobo frontal às demais estruturas cerebrais. Watts descreveu posteriormente que a paciente era mantida acordada e orientada a recitar orações ou contar números; à medida que sua fala se tornava desorganizada, os cirurgiões interpretavam isso como sinal de que haviam alcançado o “ponto terapêutico” desejado (3,4). O resultado foi devastador. Rosemary perdeu quase toda a capacidade de fala articulada, passou a apresentar severas dificuldades motoras, perdeu autonomia para tarefas básicas e regrediu a um funcionamento compatível com o de uma criança pequena, com grave dependência e incontinência (1,2). Após a cirurgia, foi internada na St. Coletta School for Exceptional Children, em Wisconsin, onde permaneceu institucionalizada por décadas, praticamente afastada da vida pública da família até seu falecimento em 2005 (1,2).
Do ponto de vista neuropsicológico, o caso evidencia de maneira contundente o papel central do córtex pré-frontal na organização da vida mental. A literatura contemporânea descreve que lesões frontais podem gerar apatia, perda de iniciativa, redução de motivação e prejuízo da capacidade de manter metas ao longo do tempo, características frequentemente agrupadas sob o conceito clínico de abulia, uma condição definida como perda da vontade ou da capacidade de iniciar ações e profundamente associada a lesões do cíngulo anterior e de áreas pré-frontais mediais (6). Revisões sobre funções executivas mostram que o córtex pré-frontal sustenta mecanismos como planejamento, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, tomada de decisão e autorregulação emocional, elementos fundamentais do que filosoficamente chamamos de “vontade” (7,8). A lobotomia pré-frontal, ao interromper as conexões entre regiões frontais e estruturas subcorticais, frequentemente produzia “apaziguamento” aparente, que na realidade correspondia à perda do impulso espontâneo, da capacidade de avaliar consequências, da reatividade emocional e da iniciativa, aspectos bem documentados em análises históricas da psicocirurgia (4,5).
Assim, Rosemary Kennedy, que antes apresentava limitações cognitivas mas mantinha laços afetivos, interesses sociais e relativa independência, tornou-se após a intervenção um exemplo extremo de como a destruição de circuitos frontais pode apagar faculdades fundamentais para a autodeterminação humana. Sua trajetória também inspirou transformações sociais: Eunice Kennedy Shriver, tocada pelas consequências vividas pela irmã, tornou-se uma das principais forças por trás da criação das Special Olympics, movimento que ampliou a visibilidade e o apoio a pessoas com deficiência intelectual (1,3). Além disso, o caso contribuiu para o declínio ético e científico da lobotomia, expondo seus riscos e a fragilidade das justificativas clínicas utilizadas para promover a técnica (4,5).
À luz da neurociência atual, o episódio ilustra que a “vontade” não é uma entidade abstrata ou metafísica, mas um fenômeno emergente de redes neurais distribuídas, cuja integridade é indispensável para que uma pessoa consiga desejar, iniciar e sustentar ações de forma autônoma. O sofrimento de Rosemary Kennedy mostra, de modo profundamente humano, que a vida mental depende de estruturas concretas do cérebro e que intervenções destrutivas nessas regiões alteram, de forma irreversível, aquilo que nos torna agentes no mundo.