Conclusão

Autor
Afiliação

Henrique Alvarenga da Silva

Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)

A ideia de liberdade costuma ser apresentada como um dilema binário: ou somos livres, ou somos determinados; ou escolhemos nossos atos, ou estamos submetidos às forças que nos constituem. Essa narrativa, embora sedutora pela simplicidade, não resiste a uma análise mais fina do funcionamento do cérebro humano nem ao exame clínico das situações em que a agência se fragiliza. Em vez de pensarmos a liberdade como um atributo absoluto – algo que possuímos ou perdemos de maneira súbita –, é mais preciso compreendê-la como um conjunto de graus de flexibilidade, associado à nossa capacidade de alternar estados mentais, avaliar alternativas, sustentar ou abandonar cursos de ação e integrar motivos conflitantes em uma linha coerente de comportamento. A liberdade, assim entendida, não é uma substância metafísica, mas uma função do nosso funcionamento biológico, das circunstâncias sociais que nos atravessam e das narrativas que construímos sobre nós mesmos. Quando esses componentes estão bem integrados, dispomos de um repertório amplo e adaptável de ações; quando se tornam rígidos ou excessivamente restritivos, nossa liberdade diminui – não desaparece, mas se contrai, reduzindo nossa capacidade de variar, responder ao novo ou agir de modo consonante com nossos próprios valores.

Do ponto de vista neurobiológico, a noção de liberdade como flexibilidade encontra suporte nas teorias da dinâmica cerebral desenvolvidas por J. A. Scott Kelso e colaboradores. Em Dynamic Patterns, Kelso descreve a atividade neural como um sistema dinâmico complexo, caracterizado por estados transitórios de metaestabilidade – uma condição em que diferentes regiões cerebrais podem oscilar entre cooperação e autonomia, permitindo mudanças rápidas e adaptativas de configuração (1). Mais recentemente, Tognoli e Kelso ampliaram essa ideia ao mostrar que o cérebro humano opera continuamente entre fases de integração e segregação, o que garante tanto estabilidade quanto espontaneidade comportamental (2). A metaestabilidade, nesses termos, é o que impede o cérebro de se fixar em padrões rígidos – ela preserva a variabilidade necessária para que novas ações e pensamentos possam emergir. Deco e colaboradores reforçam essa visão ao mostrar que o cérebro em estado de repouso não é estático, mas alterna entre múltiplos “microestados” organizados dinamicamente (3). Breakspear sintetiza bem esse quadro ao analisar como grandes redes cerebrais se reorganizam constantemente, evidenciando que a consciência e o comportamento dependem da habilidade do sistema nervoso de explorar múltiplas possibilidades e circular entre estados, em vez de se fixar em apenas um (4). Sob essa perspectiva, ser livre significa não estar preso a uma configuração única, mas manter a capacidade de transitar entre elas; significa poder representar, avaliar e eventualmente escolher caminhos distintos de ação.

Esse arcabouço teórico também ilumina situações em que a liberdade é reduzida. Condições como depressão grave, certas lesões frontais ou alterações em circuitos orbitofrontais representam casos em que a variabilidade cerebral diminui, levando a padrões exageradamente estáveis, ou seja, menos metaestáveis. Kaiser e colegas mostram que, na depressão maior, grandes redes cerebrais apresentam redução da flexibilidade dinâmica, alternando menos entre configurações possíveis e permanecendo por mais tempo em estados rígidos e repetitivos (5). De modo convergente, Cheng e colaboradores demonstram que áreas orbitofrontais associadas a recompensa e não-recompensa apresentam padrões opostos de disfunção em indivíduos deprimidos, indicando uma perda da modulação contextual e da sensibilidade a contingências – elementos essenciais para escolhas adaptativas (6). Esses achados empíricos sugerem que, quando o cérebro perde sua capacidade metaestável, perde também graus de liberdade: o repertório de ações possíveis se contrai, a tomada de decisão torna-se mais rígida, e a pessoa passa a repetir padrões que não necessariamente refletem sua intenção consciente. A liberdade se estreita porque a fisiologia deixou de oferecer caminhos alternativos.

Essa concepção também ajuda a compreender um caso clínico particularmente elucidativo: o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). No TOC, as obsessões funcionam como atratores rígidos, que sequestram a atenção e impõem ao indivíduo um conteúdo mental intrusivo e persistente. As compulsões, por sua vez, tornam-se comportamentos repetitivos, pouco variados e altamente resistentes à mudança. Nesse sentido, o TOC representa uma redução paradigmática da metaestabilidade: o sistema cognitivo perde a capacidade de oscilar entre estados, ficando preso em loops de pensamento e ação. A egodistonia característica do TOC – o fato de que a pessoa reconhece que o pensamento ou a ação “não pertencem” ao seu eu desejado – evidencia uma grave dissociação entre narrativa pessoal e comportamento executado. O indivíduo sabe que “não faz sentido verificar a porta pela décima vez”, mas sente que não consegue se afastar do atrator que comanda seu comportamento. O que se perde aqui não é a liberdade enquanto conceito absoluto, mas precisamente a flexibilidade que permitiria agir conforme o próprio juízo. O TOC torna explícita a ideia central deste capítulo: liberdade é grau de flexibilidade, e sua perda é uma disfunção funcional, não uma eliminação total da agência.

Além da base neurobiológica, nossa liberdade depende também da maneira como nos compreendemos e organizamos nossa experiência no nível narrativo. Como argumenta Shaun Gallagher, a identidade pessoal é constituída, em parte, pela habilidade de integrar percepções, memórias e expectativas em uma narrativa coerente de si mesmo, que funciona como eixo da agência (7). Sem essa narrativa, a ação perde direção e significado; com ela, podemos avaliar se nossos atos estão alinhados com aquilo que consideramos ser nossa história e nosso futuro. O self narrativo é, portanto, uma ferramenta de regulação: ao organizar a experiência em forma de história, conseguimos interpretar motivos, corrigir rumos e projetar novas possibilidades. Contudo, essa mesma dimensão narrativa pode sofrer perturbações quando a flexibilidade cognitiva diminui. Em transtornos como o TOC ou a depressão severa, a narrativa pessoal pode tornar-se rígida – ora dominada por temas de culpa, fracasso ou ameaça; ora incapaz de integrar a coerência entre intenção e ação. A perda de liberdade, nesse nível, aparece não apenas como perda de flexibilidade neural, mas como perda de abertura narrativa: a história que a pessoa conta sobre si mesma torna-se estreita demais para acomodar alternativas de ação. É desse modo que biologia, circunstância social e narrativa convergem para moldar nossa capacidade de agir.

Diante desse panorama, é possível perguntar com qual dos autores contemporâneos discutidos anteriormente essa concepção de liberdade mais se alinha. Certamente não com Sapolsky, que defende um determinismo biológico radical em que a noção de graus de liberdade perde sentido (8). Também não com Sam Harris, para quem o livre-arbítrio é uma ilusão global decorrente do fato de que não escolhemos a origem de nossos pensamentos (9). Alfred Mele, embora crítico das conclusões precipitadas da neurociência, não propõe uma teoria positiva dos graus de liberdade. É Daniel Dennett, portanto, quem mais se aproxima da posição apresentada aqui. Para Dennett, o livre-arbítrio que importa é aquele reconstruído naturalisticamente: a liberdade consiste na capacidade de antecipar consequências, inibir impulsos, deliberar, considerar razões e modular o comportamento conforme objetivos pessoais – todas essas funções dependem, fundamentalmente, de flexibilidade (10,11). Dennett rejeita tanto o determinismo radical quanto a ideia de uma liberdade metafísica absoluta; defende um meio-termo no qual a autonomia humana é real, mas gradual, contextual e funcional. A aproximação entre seu compatibilismo e a noção de metaestabilidade é notável: ambos concebem a liberdade como capacidade de evitar certos futuros, de ajustar-se dinamicamente ao ambiente, e de manter abertos múltiplos caminhos de ação. Gazzaniga, com sua visão da responsabilidade como fenômeno emergente em sistemas sociais, também dialoga com essa teoria, embora enfatize níveis mais amplos de organização (12).

Em síntese, a liberdade humana deve ser compreendida como um fenômeno distribuído, sustentado por propriedades dinâmicas do cérebro, pela estrutura narrativa do self e pelo contexto social em que estamos inseridos. Não há, portanto, um ponto único onde se localize a liberdade; há, sim, um conjunto de processos que, funcionando de modo integrado, mantêm aberto um espaço de possibilidades. Se a metaestabilidade cerebral garante variabilidade suficiente para explorar alternativas; se a narrativa pessoal permite organizar essas alternativas em termos de sentido; e se o ambiente social oferece contextos onde escolhas possam ser exercidas, então somos mais livres. Quando qualquer desses pilares se estreita – por rigidez neural, coerções sociais ou narrativas disfuncionais –, a liberdade se reduz. Essa redução, entretanto, não deve ser vista como eliminação total da agência, mas como contração dos graus de liberdade disponíveis. Assim, a liberdade não é um absoluto; é uma função variável, sustentada pela dinâmica viva de quem somos.

Referências

1.
Kelso JAS. Dynamic Patterns: The Self-Organization of Brain and Behavior. Cambridge, MA: MIT Press; 1995.
2.
Tognoli E, Kelso JAS. The metastable brain. Neuron [Internet]. 2014;81(1):35–48. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.neuron.2013.12.022
3.
Deco G, Jirsa VK, McIntosh AR. Emerging concepts for the dynamical organization of resting-state activity in the brain. Nature Reviews Neuroscience [Internet]. 2011;12(1):43–56. Disponível em: https://doi.org/10.1038/nrn2961
4.
Breakspear M. Dynamic models of large-scale brain activity. Nature Neuroscience. 2017;20(3):340–52.
5.
Kaiser RH, Andrews-Hanna JR, Wager TD, Pizzagalli DA. Large-scale network dysfunction in major depressive disorder: a meta-analysis of resting-state functional connectivity. JAMA Psychiatry [Internet]. 2015;72(6):603–11. Disponível em: https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2015.0071
6.
Cheng W, Rolls ET, Qiu J, Liu W, Tang Y, Huang CC, et al. Medial reward and lateral non-reward orbitofrontal cortex circuits change in opposite directions in depression. Brain [Internet]. 2016;139(12):3296–309. Disponível em: https://doi.org/10.1093/brain/aww255
7.
Gallagher S. Philosophical conceptions of the self: implications for cognitive science. Trends in Cognitive Sciences [Internet]. 2000;4(1):14–21. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S1364-6613(99)01417-5
8.
Sapolsky RM. Determined: A Science of Life Without Free Will. New York: Penguin Press; 2023.
9.
Harris S. Free Will. New York: Free Press; 2012.
10.
Dennett DC. Freedom Evolves. New York: Viking Penguin; 2003.
11.
Dennett DC. Elbow Room: The Varieties of Free Will Worth Wanting. Cambridge, MA: MIT Press; 2015.
12.
Gazzaniga MS. Who’s in Charge? Free Will and the Science of the Brain. New York: Ecco / HarperCollins; 2011.